sexta-feira, abril 15, 2005

Diario 00 - Vou a Guine!

Vou à Guiné! O Carlos Azevedo convidou-me para integrar um projecto dele, o “Por Todo o Mundo”. O Carlos inventou uma boa desculpa para vadiar: quer percorrer de moto todas as latitudes habitadas. O plano dele é fazer do Cabo Norte a Lisboa, de Lisboa à Guiné e depois recomeçar à latitude da Guiné mas na América da Sul e ir até à Terra do Fogo. Como dificilmente conseguiria organizar a vida pessoal e profissional para fazer a viagem de uma só vez, assumiu isso e funcionará por etapas. Investigou os transportes marítimos e a história dos Carnet’s (os passaportes para veículo indispensáveis em certos países). Há pouco tempo, o Enrique (o espanhol a quem chamamos no Nomad’s “o cônsul galego”) deu-lhe uma dica boa – a Grimaldi tem uns cargueiros com rampa de embarque que conseguem levar passageiros e veículos ao longo da costa africana. Estamos à espera da confirmação de lugar num desses barcos para embarcar até Dakar – depois descemos à Guiné e voltamos para cima, de volta a casa. O Carlos (R1100GS) convidou-me a mim, ao Teles(R1150GS) e ao Miguel Casimiro (XLV1000). Se me restavam dúvidas quanto à moto a levar, dissipei-as. Vou ter de levar a GS, senão vou numa brutal inferioridade de potência (e de velocidade de cruzeiro!). De qualquer forma, prevê-se que a maioria do trajecto seja por estrada pavimentada. Desta vez não há Erg’s para atravessar e espero safar-me com a GS, mesmo configurada para viajar em autonomia. Pelo sim pelo não, levo a roda grande (21”)à frente. Estou habituado ao ónus que ela traz em estrada (menos manobrabilidade e menos estabilidade em alta velocidade) e os ganhos em TT são consideráveis. Estamos em cima do acontecimento, há quem tenha que gastar férias em excesso até ao fim de Abril e há quem não tenha férias que cheguem mas vai ter de as inventar. A data concreta para irmos e voltarmos continua dependente da confirmação do barco que está difícil de obter. Juntámo-nos duas vezes mas foi improdutivo – comemos chouriços assados, bebemos uns canecos, contámos anedotas e rimo-nos um bocado com a perspectiva de aventuras fantásticas e com a certeza que uma preparação tão incipente vai certamente rechear a viagem de imprevistos irresolúveis! O mais que conseguimos avançar é na definição dos países a atravessar - também não é difícil :-). Feita essa definição, o Teles encarregou-se de ir às embaixadas pedir os vistos para todos. O Carlos está a preparar um plano alternativo. Se não houver barco da Grimaldi, vamos por terra e regressamos de Bissau por barco/avião. A chatice é que se não fôr o barco da Grimaldi, as motos não podem vir a granel e terão de ser contentorizadas... Continuamos à espera da confirmação da Grimaldi mas faz-se tarde. Meio a brincar já dizemos que vamos nem que seja indo e voltando por terra (mas eu sei que não tenho tempo que chegue). Entretanto levámos o golpe de misericórdia! O barco da Grimaldi está cheio de legionários que vão render as guarnições que França tem na África Ocidental. Nada feito. Agora há que ser rápido. O Carlos, inexcedível como sempre, deu gás à coisa. Conseguiu investigar o que é preciso para re-exportar as motos por contentor a partir de Bissau e passa a ser esse o plano definitivo. Fecham-se os planos de férias – informam-se os chefes e as famílias e eu, que vou ter de regressar de avião e peremptoriamente a 3 de Maio tenho de estar a bulir, compro o bilhete de regresso. A sorte está lançada! Tenho muita coisa para preparar na moto – e falta muito pouco tempo. Valeu-me o meu amigo Miguel Amorim – tratou de tirar as tripas a um catalisador velho que tinha lá na garagem, reparou-me a protecção do carter que já se tinha desintegrado há que tempos, reforçou-me a aranha da frente numa zona que tinha partido, ensaiou-me o transporte do combustível extra que vamos precisar entre o Barbas e Nouakshott... A semana anterior é um frenesim, tenho que aviar as receitas dos medicamentos, levar a vacina da febre amarela que já caducou, comprar um tal cartão de crédito que dá direito a seguro de viagem, ir levantar o carnet, ir carimbá-lo à Alfândega em Lisboa, preparar cópias dos documentos e as famosas “fiches” para os controlos policiais. E preparar profissionalmente a minha ausência: fico sempre com a sensação que isto das férias não compensa – trabalha-se demais no antes e no depois. O André Espenica mandou-nos mapas, uma lista de waypoints e links para informação porreira sobre o Senegal. Tenho que imprimir isso. Decidi não levar o PDA, é menos uma coisa para me chatear.

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