terça-feira, abril 19, 2005

Diario, dia 04 - Bojador – algures a sul de Nouahdibou (Mauritania)

Alvorada às seis! Ninguém trouxe relógio mas vamos fazendo a média dos relógios das motos, cada uma no seu fuso horário. Parece que às 08h30 estávamos a rolar com o pequeno almoço tomado na pastelaria ao lado do Titanic. Decidimos só almoçar na fronteira mauritana! O Sahara pareceu-me hoje mais bonito, a luz abriu um bocadinho, a temperatura perfeita! Passámos o desvio para Dakhla, prestámos os nossos respeitos ao monumento do Quim no trópico de Cancêr (23º27’N) e finalmente atingimos o Barbas, a última estação de serviço/hotel/fábrica de conservas antes de Nouakshott. Atestámos o que há para atestar.Eu levo 10 litros extra (além dos 30 da Adventure) em duas latas de diluente dentro das malas. O Teles leva um jerrycan de 20 litros no lugar do banco do pendura. O Miguel artilhou dois jerrys de 10 litros cada atrás das costas. Enquanto isso, o Carlos Azevedo fuma um cigarro, com o ar divertido de quem tem um depósito de 43 litros. As motos ficam é todas igualmente pesadas com’ó cacete! A fronteira marroquina fez-se nas calmas, e temos autorização para avançar para o campo de minas. A terra de ninguém continua com o mesmo aspecto lunar, desolador e estranho. O track que temos no GPS, e o único que nos permite atravessar aquilo em segurança, está desactualizado. Passa por alguns troços difíceis – areia funda e cheia de sulcos. O pessoal entretanto já inventou outra passagem que parece mais transitável mas ainda não é desta que nós vamos experimentar. A travessia de alguns troços ofereceu mesmo bastante dificuldade – mandei um tralho, atasquei, moí um bocado de embraiagem, o que é facto é que a moto está pesada mas também há a desadequação de quem acabou de fazer 3000 km de asfalto e o atrofio mental de ser aqui o verdadeiro início de uma grande viagem para uma moto de 300 kg num areal tipo Comporta rodeado de minas. Mal entrou na areia a moto do Carlos resolveu fazer uma gracinha como a AT do Luís Lourenço com o fusível fundido o ano passado. Neste caso foi um borne da bateria desapertado. Numa viagem destas – com objectivos fixos de distâncias a percorrer em determinado prazo, a sensação de uma avaria é terrível. O motor soluça e todas as nossas certezas vacilam, o céu encobre, os pássaros calam-se e o coração e outras partes do corpo ficam pequeninos. Há anos que anseio viajar sem essa pressão – adorava um dia viajar de tal maneira que uma avaria me divertisse – “Paraste? Óptimo! Também estava cansado e assim aproveito para passar aqui três semanas enquanto me enviam o Motronic lá da Europa” A areia demora a conquistar e é precisa concentração. Lembrei-me das palavras mágicas que o João Rodrigues me disse uma vez na Comporta – andar na areia requer confiança e eu sei que sei fazer aquilo! Resultou! No troço seguinte deixei a moto trabalhar e levei-a com os pés para onde foi preciso. Tive um bocadinho o sentimento de quem capitaliza um investimento a longo prazo J Está claro que no dia seguinte tive a sensação do jogador que perde tudo à roleta mas isso é outra história J Entretanto os outros avançam com desempenho parecido. Foi uma coisa porreira nesta viagem – temos graus de auto-suficiência muito parecidos. Se eu atascar sei que um dos outros também deve estar prestes. Depois ajudamo-nos mutuamente e seguimos. É porreiro não ter a sensação de que estamos a atrasar os outros e os outros não nos atrasarem a nós. E se alguém ficou para trás não dura muito a angústia de saber se está bem. Reduz-se um bocadinho o andamento e passados uns momentos eis que aparece a luzinha que falta lá ao fundo. A infraestrutura fronteiriça mauritana está ligeiramente melhor mas nada que comece a parecer uma alfândega. Continuam a ser três barracas forradas a cartão por dentro onde nos vão extorquindo com maneiras variáveis de 5 a 10 euros por cabeça. Isso predispôs-nos a aldrabar a declaração de divisas. Vamos estar muito pouco tempo na Mauritânia e não nos apetece ter de ir trocar dinheiro legalmente e voltar a mostrar o guito todo à saída. Decidimos declarar a improvável soma de 255 euros para todos. Os gajos sentiram-se insultados na sua inteligência e fecharam-nos dentro da barraquinha – agora ninguém sai e queremos ver o que está neste bolso e naquele e naquele, sim naquele. A primeira coisa que nos ocorre é que a Mauritânia é uma república Islâmica e que pode estar em vigôr a sharia, a lei religiosa. Olho por olho (bem o olho não tirámos a ninguém) O que é que se faz aos mentirosos? Corta-se-lhes a língua! Bom... enquanto começávamos a imaginar sentenças de morte, prisões perpétuas, castigos corporais e multas gigantescas o Miguel refundiu não sei quanto não sei onde e eu enfiei 10 euros no bolso das calças e fui topado. Mas ganhei tempo com a manobra e enfiei quase 500 euros no meio dos carnets que já estavam carimbados em cima da mesa. No fim da revista e sem se esforçarem muito os gajos tinham descoberto mais 480 euros e passaram-nos um responso. Foi só o susto J, lembrámo-nos das recomendações do Quim e seguimos rapidamnete pois era tarde para comermos a primeira refeição do dia assim que saíssemos da vista da fronteira. Apanha-se um bocadinho de alcatrão e a promessa da nova estrada Nouadibou – Nouakshott, mas acaba logo depois de cruzar a linha do comboio do minério. Depois começa a pista das obras – é uma mistura da antiga pista dos camiões com os desvios que a construção da estrada foi impondo. Não é fácil nem bonita. O pôr do sol estava eminente e avançámos o mais que podemos na expectativa de ainda encontrar um sítio simpático para acampar. Não aconteceu – o vento não descia de intensidade e montámos campo a umas centenas de metros da pista atrás de 3 acácias raquíticas, transparentes ao vento e que ameaçavam furar-me o colchão. O vento não deixou fazer serão e fomos para o choco muito cedo.

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