quarta-feira, abril 20, 2005

Diario, dia 05 - De algures a sul de Nouahdibou a Nouakshott

Hoje foi um dia muuuuuuuitoooo comprido... desmontámos campo e fizémo-nos à pista das obras. Ainda se fazem alguns quilómetros sem alcatrão. As obras têm alguns troços com muita areia e não são fáceis. Depois aparece uma estrada que começa no meio do deserto, como se lá não pertencesse. Vai mesmo existir a ligação por estrada entre Nouahdibou e Nouakshott! Resolvida a terra de ninguém, vai ser possível descer toda a África Ocidental por alcatrão. Ainda há poucos anos e a passagem da fronteira Sahara Ocidental /Mauritânia tinha de ser feita em comboio militar! Vamos ver o que esta ligação por alcatrão vai trazer. Provavelmente, vai passar a existir um Barbas a meia distância das duas cidades principais da Mauritânia. A exigência de autonomia de combustível deixará de ser importante, simplificando a logística de quem viaja para Sul. A questão da navegação deixará de existir. Que tipo de turismo se deitará ao caminho? Para nós, os 300 quilómetros de alcatrão que se seguem anunciam-se uma seca. E no entanto, apesar da luz feia, embaciada até aos 45º de elevação pela permanente poeira do deserto, hoje estou contente de ver o Sahara a esta distância. Não há dúvida que quanto mais física e mais lenta é a nossa progressão, mais contacto temos com tudo. Com as pessoas, com os elementos e até com a terra. Quem já viajou a pé ou de bicicleta deve saber do que falo. Nós, nas motos, mantemos a proximidade aos elementos. E em todo o terreno mantemos com a terra um contacto físico, consubstanciado na poeira que vamos comendo e nos 50 metros à nossa frente que temos de avaliar 50 vezes por segundo, sob pena do contacto com o piso se tornar ainda mais físico! Hoje, aqui preguiçosamente no alcatrão, ocorre-me a analogia das viagens “de alcatrão” com o avião. Vê-se tudo melhor de lá de cima, mas o contacto, a ligação, reduzem-se. O que é facto é que hoje estou a ver o deserto como não tinha visto o ano passado. Mas duvido que a minha perspectiva fôsse a mesma se não tivesse experimentado o que o Quim me proporcionou, o contacto com o deserto virgem, a sensação de horizonte inexplorado e intocado. O vento Leste continua a castigar-nos pescoços e braços. Às vezes a estrada inflecte para NW e vamos à bolina, outras vezes orienta-se mesmo a Oeste e vamos à boleia: meio centímetro de punho e estamos a 120 km/h! O ano passado passeei por este mesmo deserto um livro de um autor que desconhecia, o Bruce Chatwin. Foi por mero acaso que o livro foi escolhido para a viagem, mas acontece que, a haver um esteta, um teólogo para o nomadismo, esse homem foi o Chatwin. Foi uma coincidência engraçada que teve quase o sabor de uma revelação! Avante... lembro-me que o Chatwin conta que o realizador Werner Herzog, outro vadio empedernido, afirma: “viajar a pé é uma virtude, o turismo é um pecado mortal”. Acho que começo a perceber o que é que eles querem dizer. O que será viajar de moto? Ainda é turismo e pecado. Mas acho que é pecadilho. Pecado mortal é o turismo do resort e transfer :-) . Será que um dia deixo a moto e começo asceticamente a palmilhar a pé milhares de quilómetros? Acabou o alcatrão e com ele a reflexão metafísica. Ou desces à terra a bem ou a mal, é a gravidade a lembrá-lo J. As obras recomeçaram e estamos já abaixo da latitude de Nouamghar. A oeste está a pista da praia, a mítica pista da maré baixa que todos já conhecemos e que tínhamos combinado não fazer. A ideia é ganhar o máximo tempo possível para as maravilhas a Sul de Nouakshott. Pois... “Vamos pela praia?” “Buga!!!!” Um polícia num posto de controlo perdido no meio das obras confirma as indicações do GPS,o ponto onde a praia passa mais perto é em Tilouit, e para mais segundo ele a hora é a ideal porque a maré esteve baixa ao meio dia. Lá descobrimos uma espécie de acesso que nos deixa a uns duzentos metros do Atlântico. É só cruzar umas dunazitas pequenas e estaremos na praia. Com estas motos carregadas é de facto mais fácil pensá-lo que fazê-lo. Mas somos quatro e mal seria se não conseguíssemos. Correu tão bem que, com as motinhas já na consistente areia molhada e já viradinhas para Sul, tomámos um banho merecido e almoçámos na calma. Só faltam 200 km para Nouakshott e a maré já vamos ver como é que está... Estava... a encher e com força. J Foi o que percebemos depois da primeira excitação que nos dá sempre que andamos naquela praia. Tivemos que começar a rolar mesmo à beirinha da água, nalgumas passagens havia pedras e lá tivemos que fazer umas trialeiras. Até que o Carlos é atacado com mais força por uma onda e a GS arreia. Já levantada, recusa-se a pegar. A pista da praia parece subitamente muito má ideia! Arrastámos a moto mais para cima e começámos a desmontar coisas. O filtro de ar está molhado mas não parece que a moto tenha bebido água. Pelo sim pelo não, tirámos as velas. Estão secas mas o que é facto é que não faíscam. Vimos os fusíveis todos, desmontámos todas as fichas, trocámos os cabos de alta tensão, secámos bobines, intercambiámos relés com outra GS e nada. Canhão de ignição? Sensor de Hall? Devíamos ter trazido o esquema eléctrico... isso e um multímetro a funcionar. Esqueci-me de verificar o meu e pelos vistos não tem pilhas. De que serve um multímetro sem pilhas na pista da praia, na Mauritânia? Em desespero de causa e após as derradeiras tentativas infrutíferas telefonamos, via satélite, ao nosso anjo da guarda, o João Rodrigues. “Centro de Apoio a Deficientes Mecânicos , boa tarde!” Foi bom ouvir a voz calma do João, mesmo com o atraso do satélite. “Já secaram as bobines? Isso deve ser o sensor de Hall. Desmontem a tampa da frente e arejem bem tudo. Daqui a um bocado ela pega”. Só de o ouvir fiquei logo convicto que a motinha ia colaborar! Seguimos à risca as recomendações e... nada. Esperámos e... nada. Começámos a equacionar as alternativas: Chegar tudo para cima e acampar, quando a maré descer ir buscar uma pickup... Última tentativa e... não é que ela pegou!!!!!!!!!!!!!!! Fizemos uma espécie de dança da chuva, e arrumámos tudo a correr. O Carlos ficou tão contente que gastou o foguete que levava para quando chegássemos à Guiné. Agora há que fazer os quilómetros de praia que nos separam de Nouakshott com a maré bem cá em cima e o lusco-fusco a descer. Tirámos o ar possível aos pneus e rolamos na areia seca, vou agradecendo mentalmente as sessões de treino na Comporta, mas por vezes o deserto morre mesmo no mar e não há praia por onde rolar, só dunas. Outras vezes são pedras... O Miguel vai à frente e manda a Varadero às ondas sem problemas! Nós vamos ficando para trás a pensar em mais avarias... às tantas damos com ele: a moto caída na espuma, uma mala já desmontada e ele a salvar os pertences tipo Luís de Camões J uma coisa épica! Bom, a coisa não estava fácil e a 25 km’s do destino passamos um acampamento de pescadores. Eu, sempre de olho no GPS, não fôsse o bicho desaparecer, tentei confirmar. A maré ainda ia subir mais e o que faltava de praia já não era mesmo transitável. Havia uma ligação à estrada de alcatrão que passa uns 8 kilómetros para o interior. Derivámos para lá, já de noite. A tal ligação é tramada – areia mole, funda e sulcada pelos jipes que levam o peixe. Deixo caír a GS uma vez. Levanto-a e depois deixo-a cair mais uma vez, e outra e outra. Concentro-me e volto a cair, experimento em pé e idem. Sento-me, arranco com os pés no chão e caio. Penso, estou cansado, mas não é razão para tanto atrofio... caio novamente! Bom, arrasto-me devagar até que finalmente encontramos o alcatrão. Aí, bebemos a água que sobrava. Já não sobravam era muitas forças para dar à bomba e encher os pneus, de maneira que decidimos fazer os 25 km’s que faltam devagar. Entretanto percebi porque é que caí tanta vez ali atrás! Na primeira queda entortei a protecção da manete direita e tenho a roda da frente travada. Dah... Ainda faltava um episódio: no alcatrão rolei depressa demais. Ia a pensar que o pneu tubeless podia aquecer e descolar da jante quando isso aconteceu, prái a 80 à hora. Já furei atrás e à frente várias vezes, mas nunca tinha tido um descolanço súbito. A viagem podia ter acabado ali para mim! Varri a estrada toda primeiro para um lado depois para o outro até que consegui parar na berma. O pneu tinha descolado completamente de ambos os lados. Não ia ser possível colá-lo sem ar comprimido forte. A solução foi montar-lhe uma câmara de ar. Operação concluída chegámos, enfim! a Nouakshott. Íamos com o waypoint do albergue onde está a Isabel, a portuguesa que conheci o ano passado em Ouadane. A Isabel está fora por uns dias mas o Auberge Sahara tem um aspecto porreiro e lá nos abancámos. É tarde, mas dizem-nos que ainda estará aberto o Bab l’Ksar, o restaurante onde no ano passado descobrimos apoteóticamente cerveja Sagres gelada. É para lá que vamos finalmente respirar fundo! Acabámos com o stock de Sagres e tivémos de passar à Heineken. Bem jantados, de volta ao Auberge, o primeiro taxi que apanhámos desiste da corrida. Explicámos “para o Auberge Sahara ao pé do Carrefour da route de Noauhadibou”. O gajo deve ter percebido, “para Nouahdibou, através da route do Sahara” J disse “Non, non...” estacionou do outro lado da rua e saiu do carro, deixando-nos lá dentro!!! À segunda tentativa, levam-nos sem problema nenhum e podemos finalmente ir descansar. Foi um dia muuiiiiiiito comprido!

Sem comentários:

Enviar um comentário