quinta-feira, abril 21, 2005

Diario, dia 06 - A pastar em Nouakshott

Depois de tanta acção e emoção ontem, resolvemos ficar hoje aqui e só voltar à estrada amanhã de manhã. A ideia era dormirmos até tarde e darmos uns carinhos às motos. Mas o ritmo das alvoradas com o nascer do sol já foi interiorizado pelo relógio biológico. Levantámo-nos cedíssismo. Saímos em busca de oughias (a moeda mauritana a que chamamos atouguias...) É feriado e os bancos estão fechados, de maneira que o taxista nos leva a um mercado onde uns mouros (expressão dele) negoceiam no mercado negro. Para nossa surpresa, o papel moeda foi reformado! Acabaram-se as notas com que lidámos o ano passado e que literalmente se desfaziam. Depois fomos procurar pequeno almoço. Escolhemos a esplanada do iraquiano. Não se ponham a imaginar uma esplanada exótica, daquelas com empregados fardados e croissants quentinhos J. É um boteco como todos os de Nouakshott, capital pobre de um país paupérrimo. Perguntámos as horas e são 08H15. Mas põem-nos uma ementa à frente como se fôsse hora de almoço. A sensação que já tinha levado daqui o ano passado confirma-se: não há uma hora morta nesta cidade! Tudo bule a toda a hora, as lojas, os mercados, as farmácias. A única coisa que parece fechada às 08h15 da manhã de um feriado são os bancos. Para nós também já parece hora de almoço. Deitamos abaixo omeletes com um sumo de laranja esquisito e uma cafézada potente. O iraquiano tenta trocar umas palavras de português connosco – diz que esteve 10 anos no Brasil. Mas ou nunca falou bem ou está enferrujado. O nosso mísero francês consegue ser melhor. Entretanto vimos que há um cybercafé mesmo ao lado. São assim as capitais modernas – muita tecnologia da informação :-). Fomos revelar ao mundo que tínhamos vencido a pista da praia e a primeira avaria mecânica. Enquanto lutava com o maldito teclado AZERT que os malditos franceses legaram a estes países, topei uma mancha gráfica conhecida pelo canto do olho. Não é que o parceiro do lado estava a surfar o advrider.com?! Olhei com mais atenção e confirmei. Meti conversa, era um holandês, viaja sozinho numa KTM 640 como a minha. Que por sinal está com o descompressor automático avariado... começo a sentir-me mesmo muito contente por ter trazido a BM J. O holandês parece que está à espera de uma peça e depois segue para o Senegal e Mali – não tem limite de tempo. Despedi-me um bocadinho invejoso... Voltámos ao albergue e demos uma lavagem sumária às motos para as livrar da areia salgada. Entretanto, vamos topando os outros clientes: um grupo deles, franceses, viaja num autotanque de bombeiros alemão que ainda traz as mangueiras no tejadilho e gasta 20 e tal litros aos 100. Outras, belgas, num Land Cruiser com bom aspecto. É tudo pessoal alternativo, são jovens mas parecem um bocadinho anacrónico, como que saídos fresquinhos de Woodstock... parece-me é que eles ficam muito tempo no albergue a falar francês uns com os outros... já nós, que supostamente deveríamos estar a dar manutenção às motos, acabou-se-nos a paciência. Decidimos ir almoçar ao porto de pesca, às barraquinhas de pescadores onde no ano passado comi uma refeição completa por 55 escudos... Azar, é feriado e as barracas acompanham as instituições finaceiras! Estão fechadas!! Oito ou oitenta, almoçámos num hotel com ar condicionado à beira da praia! Pelos padrões mauritanos é luxo asiático. Numa mesa adjacente uns oito russos e uma única russa acompanham a refeição a Jonhny Walker Black Label como se fôsse refresco. Como o país e os costumes são islâmicos um deles vai pudicamente pondo e tirando a garrafa dentro de um saco de plástico. O almoço ficou-nos caro e decidimos logo que hoje fabricaremos o jantar. Até lá decidimos ir dormir para a praia e vadiar entre os barcos de pesca. Como hoje é feriado poucos saíram para o mar. É pena, pois a chegada das centenas de barcos ao fim da tarde era um espectáculo a que esperávamos assistir. No regresso ao albergue, pedimos ao taxista para nos levar ao mercado dos animais. Ouvi dizer que lá se continuam a vender e organizar a maior parte das caravanas de camelos que ainda transitam o interior da Mauritânia. Explicado isto ao taxista, comprova-se mais uma vez o nível rudimentar do nosso francês: o gajo leva-nos por vielas estreitas ao indescritível mercado da carne e chama um amigo para nos vender uma perna de camelo! O aspecto da carne - ou do que dela se consegue ver por debaixo das moscas - é deplorável! O Miguel, que achava que “peixe não puxa Varaderos” está chocado J!! Não obrigado, o jantar é mesmo massa com chouriço, tudo manipulado por nós! O taxista só percebeu onde queríamos ir quando o Miguel lhe disse, enquanto se abanava e segurava umas rédeas imaginárias: “Se je veux acheter un chameux pour monter, ou est’ce qui je vais?” “Tu veux acheter un chameux pour monter??!!!!” com a expressão de incredulidade ainda estampada no rosto explicou-nos que sim, que existe o mercado mas fica a uns 15 km’s para Este. Ainda não será desta a visita, mas enquanto se despedia, o taxista ainda se ria com a perspectiva de comprarmos quatro camelos. Entretanto fomos atestar as motos e repôr a pressão dos pneus (íamos gripando o compressor – aqui ninguém usa 3 kg/cm_!) e agora que já é noite e está escuro podemos ir fazer a tal manutenção prometida às motos. Ficou-se mais pela intenção mas é o que conta. O Teles insistiu em trocar a lâmpada do farolim traseiro. Renitente em sair do casquilho, acabou por se partir e cortar-lhe o polegar com alguma profundidade. É uma oportunidade que espero há muito tempo! Fiz o meu ar mais profissional e disse-lhe que era indispensável “um pontinho” sob pena de se desencadearem gangrenas, septicémias, amputações... curiosos, os outros concordaram! Vou poder suturar o dedo ao Teles e aumentar assim a minha experiência de socorrista! Já com a agulha bem espetada no dedo o gajo borrega... bah, menina! Atamancámos aquilo com cianoacrilato e steristrips, vamos ver se aguenta. Amuado, eu acho que não, mas o dedo é dele. Jantámos chouriço assado em whisky e massa (bem picante, a minha!). Depois de tudo arrumado o Miguel arranha uns acordes numa viola que já só tinha 5 cordas. O Albergue fica já pago, custou-nos 5 Euros/cabeça/noite. Deixo um recado à Isabel lamentando não cumprir a tradição: fotografar as bonitas ilustrações do seu diário. Amanhã saímos cedo para garantir que atravessamos a fronteira com o Senegal e chegamos a St.Louis. O Teles, mesmo com o dedo amassado, já ronca.

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