sexta-feira, abril 22, 2005

Diario, dia 07 - De Nouakshott a Sant Louis (Senegal)

Saímos... cedo, claro. Só para deixar o granel de Nouakshott leva-se meia hora. Ainda no subúrbio as casas/barracas vão-se espaçando mais, e depois mesclando com tendas. Passámos um cemitério, uma simples plantação de lápides, anarquicamente na areia, estranho... a luz aqui é mais intensa, menos filtrada, aumenta enquanto a latitude baixa. É sinal de que vamos apanhar menos vento... Depois de parar um dia é bom voltar a andar de moto. A temperatura está a aquecer e de facto não há vento. Tenho os sentidos bem abertos, com a consciência de que só hoje começamos a pisar território novo. Mas é curioso, o deserto aqui começa a parecer-me o de Bou Lanouar, o das acácias dispersas, o da pista do comboio, como se obedecesse a uma qualquer lei de simetria e a Sul se espelhasse o que já conhecemos a Norte. E assim de repente, 160 km’s andados, assim a seguir a uma lomba, aparece de repente uma zona de vegetação mais intensa. São só acácias, pequenas, mas muitas. É isto o Sahel? Abrandámos todos o andamento, todos conscientes que o deserto mudara efectivamente. Contrariamente à minha expectativa, essa mudança não é gradual. Quando chegamos a Rosso, aí sim, já dá para perceber que há um rio por perto. A estrada é bordejada de árvores. Rosso tem o mesmo ar mísero de todas as cidades mauritanas, agravado pelo facto de ser uma fronteira concorrida. Atestámos as motos e seguimos caminho. Queremos fazer uma pista que corre ao longo do rio Senegal e nos levará à fonteira de Djama, menos movimentada. Enquanto parávamos numa boutique para comprar água fomos interceptados por uma “melga” que insiste em nos vender um seguro. Segundo ele, o seguro será necessário para passar a fronteira, não se vende em Djama, amanhã começa o fim de semana e na segunda seguinte é feriado,... os argumentos sucedem-se de rajada. É tudo obviamente mentira e torna-se muito irritante quando o gajo insinua que tem amigos na fronteira e saca do telemóvel para, em hassania, descrever a nossa comitiva... mandamo-lo “comer atum” e vamos à nossa vida. A pista é bem gira, e rompe a monotonia da condução “alcatroada” de hoje. Encontrámos uma sombra que nos resguarda um bocadinho da enorme caloraça. Paramos para almoçar e aproveitamos para organizar as papeladas para a fronteira. Desta vez escondemos com muito cuidadinho o dinheiro que não queremos que nos vejam. Mesmo assim vamos escaldados... acabámos por não trocar nenhum dinheiro legalmente pelo que vamos ter de mostrar exactamente os euros que declarámos à entrada (melhor dito, que nos obrigaram a declarar) e jurar pela tese de que não gastámos um cêntimo em toda a travessia da Mauritânia. Vamos lá ver o que isso vai dar. Enquanto arrumávamos a tralha para recomeçar a andar, o Teles chama a nossa atenção: vindo de Nordeste um ciclone aproximava-se. Uma barreira de poeira precedida por uma ventania desordenada. São ventos do deserto. Arrancámos imediatamente e percebemos que íamos despedir-nos dessa referência geográfica tão forte. O rio Senegal marca o limite ao Sahara de uma forma taxativa. É estranho como um simples rio divide o que parecem ser dois continentes diferentes – a África do Sahara da África negra. À nossa esquerda paúl verdejante, à nossa direita o deserto ventoso. Até chegar à fronteira, a pista atravessa uma zona de parque natural, vêm-se uns pelicanos, flamingos e outros passarocos de que não sei o nome. Na fronteira, do lado mauritano cumpre-se o ritual exército-polícia-alfândega. Aqui a liturgia é abrilhantada com mais uma etapa: a comunidade também cobra, alegadamente por causa do parque natural que acabámos de atravessar. Estávamos nós a choramingar um desconto na polícia quando aparece mais uma moto. É o holandês do cybercafé de Nouakshott. Conseguímos incluí-lo no pacote: passamos cinco pelo preço de quatro. O rio Senegal atravessa-se sobre a barragem de Djama e também se paga. O desconto pague 4 atravesse 5 manteve-se. Do lado senegalês somos recebidos de forma cortês mas autoritária. Compramos seguro a uma senhora que estava a dormir a sesta e lá andámos a negociar o desconto de 20% para o grupo luso-holandês. Tudo somado, para passar da Mauritânia ao Senegal gastam-se uns cobres apreciáveis. Como se não bastasse, no primeiro controlo policial após a fronteira, voltam a querer extorquir-nos. A coisa é posta como sendo obrigatória, mas com margem para negociação, o que demonstra logo o carácter de bakshish. Deixa uma impressão profundamente negativa. À escala do custo de vida e do rendimento médio naqueles países, o pessoal fronteiriço saca quantias exorbitantes e deve viver mesmo muito bem. A pista, chapa ondulada e areia, prossegue quase até St.Louis. Para nós é uma pista boa, mas certas passagens de areia estão um bocadinho no limite. Já o holandês diverte-se abrindo as goelas à cabeça hi-flow e ao Akrapovic da 640. Hum... e começa a dar-me a inveja outra vez... O deserto desapareceu de vez! A pista é ladeada de árvores e quase surreal para nós que estamos acabadinhos de sair do Sahara. Passamos nos arrabaldes de Saint Louis, em direcção ao Zebrabar, um camping em plena Langue de La Barbarie, um istmo que é também parque natural. O holandês decidiu acompanhar-nos e está exuberante: fala pelos cotovelos, tira fotos e dá umas gásadas à LC4 para se meter com os primeiros senegaleses que encontramos. Na fronteira queixou-se-nos que tinha achado os Mauritanos tristes e pouco comunicativos. O que é facto é que o francês dele ainda deixa mais a desejar que o nosso. E o nosso é muito bera. Lembrei-me da minha viagem a solo à Bósnia. Em quatro ou cinco dias na Croácia e na Bósnia não consegui entabular uma conversa que passasse dos monossílabos. E lembro-me da exuberância que senti quando reentrei em Itália, consegui pedir o pequeno almoço pelo nome próprio “colazione” e imediatamente um motard me aborda e me explica o melhor caminho para fugir à autoestrada! Também eu falei pelos cotovelos. Não tem muita piada viajar sozinho quando se acarta a tal barreira linguística. No Zebrabar encontrámos outro motard, o Terry: um inglês de 50 anos que viaja numa BMW R100GS que podia competir como “rat bike” mas é na realidade uma preparação HPN muito bem disfarçada: Marzochi Magnum, disco e pinça MAP, paralever mais comprido, carreto da 5.º modificado,... será esta a moto ideal? Uma coisa é certa, desperta muito menos a atenção que qualquer das nossas. O Terry é raposa velha e explica-nos os truques das passagens fronteiriças – segundo ele, só é preciso tempo. Quando lhe pedem dinheiro diz que não tem. Quando lhe dizem que se não pagar não passa, diz que espera. Quando o vêm começar a fazer chá, já com a tenda montada, normalmente desistem de o chatear e mandam-no seguir. No Zebrabar está ainda um casal de suíços que viaja num Land Cruiser bem transformado. O carro tem 18 buracos de bala e três delas ainda estão dentro do suiço. Aconteceu há menos de um mês, na Guiné-Conakri. Deixaram uma pista principal para escolher um sítio para acampar, passado pouco tempo começa o tiroteio. Ninguém os roubou, ninguém os interpelou. “Só” os balearam... Por comparação o Senegal parece-nos um sítio muuuito civilizado e amistoso enquanto vamos de taxi jantar à Ille de Saint Louis. Entramos pela ponte de Faidherbe, projectada pelo Eiffel para atravessar o Danúbio. E somos largados mesmo em frente ao Hotel de la Poste, onde pernoitavam os ases da Aeropostale, como Saint Exupéry e Jean Mermoz. Depois da janta ainda fomos ao Iguana, mas não nos podemos demorar. O Zebrabar ainda é longe e combinámos uma hora com o taxista.

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