sábado, abril 23, 2005

Diario, dia 08 - De Sant Louis a Dakar

Hoje fui o último a acordar... a sinusite lixou-me o esquema de levantar com o sol. Os outros já levantaram campo e comeram. Doi-me a cabeça. Não temos pressa e vou devagarinho ao pequeno almoço Zebra que inclui sumo de laranja natural, ovo quente, café de filtro, compota caseira... tudo isto, na esplanada sob os coqueiros e com uma aragem fresquinha a acompanhar. As aspirinas começam a funcionar e não se está nada mal aqui. Volto a interrogar-me quando vamos nós viajar com tempo suficiente para ficarmos o tempo que nos apetecer nestes sítios. É essa a opção do John, o holandês da KTM. Decidiu ficar pelo menos para amanhã. Ele e o Terry acompanham-nos a Sant Louis na KTM. Não sem antes sugerirem que eu atravesse a vau uma zona pantanosa que separa a Langue de Barbarie do continente. A ideia era eu ir à frente para os fotografar. O que é facto é que depois de me verem atascar alarvemente no lodo deram de sola a rirem-se, por um caminho perfeitamente praticável que eu não sabia que existia. Tivemos de deitar a GS para a desatascar e em consequência tive um daqueles momentos negros em que a mecânica não colabora. Não foi nada de especial, mas depois do susto que a GS do Carlos Azevedo nos pregou na praia, estamos todos muito susceptíveis. Parece que os meus cabos de alta tensão já não estão grande coisa e ao deitar o cilindro esquerdo na lama a moto ficou a trabalhar só com o direito. Tive a minha vingança quando o holandês chegou ao alcatrão e deu com o pneu da frente em baixo. Tinha deixado a tralha no Zebrabar e tive de lhe emprestar a bomba. Quando um gajo quando nasce vocacionado para a assistência em viagem, não há nada a fazer. Separámo-nos à entrada de Sant Louis, onde nós ainda demos uma voltinha com as motos, a ver se descobríamos um sítio giro, barato e com vista para as motos onde pudéssemos almoçar. A cidade é muito bonita e debaixo de um sol franco deixa ainda perceber o esplendor dos tempos em que era a capital da África ocidental francesa. Muitos edifícios parecem congelados há duzentos anos. Outros foram já restaurados desde que a cidade se tornou património Unesco em 2000. Volto ao hotel de La Poste: Saint-Exupéry é uma das minha referências, casou com os ares e namorou com o deserto. É pois com curiosidade assumidamente iconográfica que fotografo a placa da Aeropostale tão bonitinha. Será igual à de origem? Não entrámos para perguntar e ver o hotel e foi pena. Mas acho que vou voltar a passar aqui. Decididamente já gosto do Senegal. Como o pequeno almoço Zebra até rendeu, fizémo-nos à estrada, objectivo Dakar. Andámos apenas 19 km e em Rao surgiu-nos o tal sítio perfeito para almoçar. Parece uma espécie de franchising da Maggi, com uma decoração shocking e um aspecto limpinho e simpático. As mãos lavam-se na mesquita mesmo ao lado. O muezzin estava a fazer o sound check ao amplificador (a sério!) mas felizmente calou-se entretanto. Almoçámos calmamente e aproveitei para desmontar o ecran da Adventure. Já vinha partido desde a fronteira de Guergarat e uma vez que acabámos as longas ligações de alcatrão e vento já não me faz falta. Além disso, através dele tenho dificuldade em avaliar o calibre dos buracos da estrada e não estou descansado com a minha roda da frente. Já gastei a câmara de ar de reserva e se a trincar numa cratera só me resta remendá-la. O meu almoço estava bom! Arrozinho míudo com guisado de peixe. Pão e laranjas e café e tudo! Os outros ainda não se deixaram convencer gastronomicamente e continuam a omeletes que também tinham bom aspecto. Depois de arrancarmos a paisagem volta a mudar – as acácias são maiores e o Sahel muda para savana, já há ervas... aparecem os primeiros embondeiros, gigantes, imponentes. As terriolas são simpáticas e têm aquele ar arrumado que falta às cidades. Não sei se é por ser sábado mas as mulheres são todas parecidas com a Naomi Campbell!! Até Dakar aumenta a densidade de pessoas, Naomis incluídas. Chegámos aos arrabaldes da capital ao lusco-fusco. A estrada é larga, movimentada e poluída. Temos um waypoint para um parque de campismo, o Hippo, que esperamos seja parecido com o Zebra. O gajo que tirou o waypoint deve ser da minha raça, pois naquelas coordenadas não mora nenhum “campement”. Seguiu-se um rali paper pelas ruelas de uma aldeia de pescadores entre a estrada e a costa. As ruas são de areia relativamente funda e temos mirones com fartura – o que aumenta 200% o grau de dificuldade de qualquer pista. Lá conseguimos descobrir os restos mortais do tal Hippo. Felizmente está fechado pois parece um campo de refugiados pequenino. Decidimos ficar no hotel Flamboyant mesmo à beira da estrada principal e ir jantar ao centro de Dakar de moto. O nome não corresponde bem ao aspecto do estabelecimento mas está acima dos nossos mínimos e o preço não escandaliza. Aproveitei a cobertura de GSM e falei para Portugal a matar algumas poucas saudades. O André está em Tancos a ver a mesma Lua cheia que eu – parece que vou perder o que seria o meu primeiro salto nocturno! Cães! pensei eu! O gajo está em Dakar! Cão! pensam eles. O dono do hotel convence-nos que é perigoso levar as motos à noite mesmo para o centro e lá nos vende baratos os serviços de um taxi. Perigo por perigo mais valia ter enfrentado o de perder a moto! O trânsito é caótico, os peões atiram-se para a estrada e nós é que nos sentimos vulneráveis dentro do taxi que parece que vai perder uma roda a qualquer momento. Ao menos o taxista é simpático no seu papel de cicerone. Não parece é conhecer muito para além da Place de l’Independance. É grande e bonita, lembra Marselha. Combinamos uma hora para o regresso e escolhemos o Viking para jantar. São dez da noite e as ruas estão escuras e estranhamente calmas. Enquanto esperamos infinidades pelo jantar, vão chegando Naomis e cavalheiros brancos ao bar. A atmosfera tornou-se engraçada com os ocidentais decadentes a fazer lembrar mercenários, artistas e personagens de Corto Maltese. Quanto a nós, estamos muito bem dispostos: há música ao vivo, uma guitarra muito bem tocada. Nós também estamos um bocadinho (... tocados... ) e felizes de estar no destino mítico, a Dakar dos Parises Dakares todos da nossa adolescência. O jantar atrasou-se e vamos buscar o taxista para beber uma Gazelle conosco. Acho que lhe demos uma boa prenda, as ruas estão agora iluminadas, há imenso movimento e dá para perceber que o Viking está manifestamente in. Os vinte quilómetros de regresso ao hotel fazem-se no meio de uma balbúrdia imensa. São duas da manhã e esta gente não dorme!

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