domingo, abril 24, 2005

Diario, dia 09 - De Dakar ao Barracuda, algures no delta do Saloun

No Flamboyant um catraio oferece-se para lavar as motos enquanto tomamos o pequeno almoço. Elas bem precisam e nós aceitamos. O plano para hoje é simples: primeiro vamos em peregrinação ao Lac Rose, depois seguimos para Sul até um sítio qualquer. Os subúrbios de Dakar que temos de atravessar para descobrir o Lac Rose não são bonitos. Mas há qualquer coisa de dinâmico, de grande movimento, que me faz gostar destes sítios. Têm de ser as pessoas. A primeira vez aconteceu-me em Luanda, já lá vão uns quantos anos. A cidade estava cheia de lixo e apresentava cicatrizes de guerra. No entanto, o bulício todo, a dinâmica das pessoas e a alegria dos miúdos deixaram uma impressão muito positiva. No fundo é a antítese da baixa lisboeta a um domingo de manhã. Em regra não gosto de cidades, mas as cidades vazias são mesmo deprimentes. Aqui as pessoas são muuuuitas, as ruas nunca estão vazias e o ambiente é alegre. Lá demos com o lago que é mesmo côr de rosa. O teor de sal é elevadíssimo, mas a côr rosa é devida a uma bactéria qualquer. Para nós é tinto! A característica notável do Lac Rose não é a côr! É o facto de lá terminar invariavelmente o Paris-Dakar. No último dia de prova, faz-se uma especial de cerca de 30 Km. Além de consagrar vencedores, esta especial é a última oportunidade para os mais rápidos conseguirem uma vitória numa etapa. Grandes despiques têm ocorrido, com motos com depósitos de 30 e tal litros a competirem como numa pista de motocross. Em 2002, por exemplo, o Paulo Marques ficou a apenas um segundo do Giovanni Sala na luta pelo primeiro lugar na etapa. Para os outros, os lentos, o Lac Rose é uma miragem que pode durar até quinze dias. Todos sonham lá chegar e a maioria não consegue. Iam seguir-se momentos de introspecção, e eu ia recolher uma amostra da água para o meu amigo Zinga, quando fomos distraídos por uns miúdos a vender bugigangas para turistas. Está visto que o local é alvo de muita romaria! Bom, vamos mas é dar uma volta a isto, ao lago! Os putos olharam desconfiados para o porte das motos e das malas, inversamente proporcionais ao aspecto dos pilotos (excepção feita ao Miguel Casimiro que nesta viagem exibe o ar mais “piloto de fábrica” de todos nós) e perguntam inocentemente “mais ça monte les dunnes???”. O “ça” era claramente depreciativo: já lá deve ter passado muita GS que se foi atascar nas dunas... “On essaye” foi a resposta, a não querer aumentar as expectativas. E ensaiámos com sucesso! Atingimos a praia pelos traços repetidos de todos os competidores que já lograram terminar a mítica prova. Desculpem o tom histriónico, mas isto são muitos anos a chorar em frente ao Eurosport! Em todo o caso, a pistazinha não é pêra doce. É mais ou menos como a Comporta (outra vez a Comporta! deveria ser considerada reserva natural de aprendizes a motard africano...) mas com umas subidas valentes. Parei no alto de uma para documentar fotograficamente o momento histórico e estava a ver que já não arrancava a descer! Gastámos a manhã na voltinha ao Lac Rose, mas valeu a pena, tal foi a realização. De volta à estrada passámos a reserva de Bandia e optámos pelo safari. A reserva é um bom exemplo de conservação da natureza e de negócio muito bem feito. Vimos antílopes, impalas, búfalos, girafas, rinocerontes... a bicharada toda. A mim não me entusiasma por aí além o conceito de reserva... era bom que subsistissem mais parques naturais com extensão suficiente para alojar todos estes bichos mais os seus predadores naturais. As reservas como a de Bandia são uma espécie de reforma dourada para os herbívoros: condomínio fechado, ausência de predadores e cuidados médicos gratuitos. Em todo o caso, só pela flora a voltinha teria valido a pena. Avistam-se bosques de embondeiros, surreais nas suas enorme dimensão e esparsa densidade. O guia é simpático e conta-nos a história dos funerais dos griots ao pé de um embondeiro com caveiras lá dentro. Os griots são os bardos, poetas tradicionais, guardiães da tradição oral, membros de uma casta específica. Animam as festas, contam hitórias, falam em público. Apesar da função intelectual, ou se calhar por causa dela, a casta é das menos valorizadas. Como nunca trabalharam a terra não poderiam ser enterrados nela, sob pena de a tornar infértil. Quando morriam, os outros habitantes da aldeia escolhiam um embondeiro adequado e sepultavam-nos lá dentro. Num esforço de modernização, Leopold Senghor, o primeiro presidente do Senegal, poeta ele mesmo (embora não pertencendo à casta dos griots) atendeu a uma reclamação de igualdade dos poetas e legislou no sentido destes poderem ser enterrados. Alguns senegaleses acreditam que começaram nesse ano as grandes alterações climáticas globais. Bebemos uma cerveja no restaurante da reserva, mas estamos em modo poupança. Não vamos almoçar aqui, apesar do aspecto sumptuoso da cozinha e do serviço. Em vez disoo, parámos numa vila e comprámos mangas e pão para o almoço. Um miúdo talhante leva-me simpaticamente ao padeiro. Conhece os planteis da primeira divisão portuguesa muito melhor que eu (convenhamos que não é difícil) e começo a perceber esta diferença significativa para a Mauritânia. O futebol aqui é forte e dá para estabelecer contacto com uma simples palavra: “Figo”. Mas mais sobre o craque da bola mais adiante... J O almocinho é mesmo à beira da estrada e devem estar uns 40ºC a uma sombra que não existe. De seguida saímos finalmente do itinerário principal para uma estrada que perdeu o alcatrão. A paisagem continua a mudar até à zona do delta do rio Saloum. Atravessámo-lo num ferry por 1200 CFA (Francos Centro-Africanos 655=1 EUR) tendo direito a colete salva-vidas obrigatório. Uns míudos de uma organização tipo escutista batucavam e cantavam com um ritmo fantástico, a luz do crepúsculo caía sobre a pista linda que nos esperava do outro lado do rio. São momentos assim que nos garantem que estamos a fazer a viagem certa! O Carlos Azevedo, não consegue segurar o ímpeto artístico: tal é a perfeição da cena que tem mesmo de fotografar umas míudas a moer algo num pilão e deve ter saído uma daquelas fotos National Geographic!! Na altura de decidir se deveríamos acampar ou avançar para a fronteira com a Gâmbia vimos uma tabuleta a anunciar um tal de “Hotel les Barracudes” por uma pista à nossa direita. Não parecia nada plausível um hotel naquela direcção mas já que se faz tarde vamos arriscar. Seguiram-se mais de vinte quilómetros de todo-o-terreno exigente, à luz dos farois. Em cada aldeia em que perguntávamos, respondiam-nos simpaticamente “Les Barracudes? Oui, c’est pas loin” e seguiam-se mais 5 km de areia. Efectivamente, iam aparecendo em determinados cruzamentos umas tabuletas muito bem feitinhas “Barracudes”. Lá chegámos e percebemos que a perfeição das tabuletas condizia com a qualidade do sítio. O preço é que não era simpático. Tentámos negociar mas o gerente não cedeu muito. Fizémos bluff “Então vamos embora” e como era época baixa resultou! A nossa proposta ultrapassava os limites de decisão do gerente. Foi em busca do patrão. Este aceitou as nossas condições: os 4 num bungalow, pelo preço de dois e já com oferta de pequeno-almoço tudo porque “Ils sont motards”. Ficámos muito satisfeitos tinha sido um dia comprido e enquanto regateávamos tínhamos entrevisto uma piscina que prometia estar (e estava!) a 30º!

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