segunda-feira, abril 25, 2005

Diario, dia 10 - Do Barracuda, algures no delta do Saloun, a Baila (Gambia-Senegal)

Tinha voltado a esquecer-me dos mapa-mundi, ocorreu-me no ferry, enquanto explicava a um rapazinho vestido com um uniforme colegial onde ficava o país do Figo. O ferry atravessava de marcha-atrás o rio Gâmbia. De marcha atrás para mim, que fiquei entalado entre uma escada de peões e um Nissan Patrol. Ainda demora uma boa meia hora. A disposição não era a melhor... a minha posição no barco era incómoda e tínhamos sido “assaltados” na fronteira. Para sair do Senegal não pagámos nada, mas para entrar na Gâmbia pagámos taxas legais e ilegais. Explicámos que teríamos de levar um recibo para Portugal com todas as nossas despesas – “It’s not the procedure here. You pay, you go” Insistimos que não podemos pagar nada sem recibo. Seguiu-se um impasse. Às tantas parecia que íamos ganhar... mas os filhos da mãe dão-se ao luxo impune de carimbar e assinar um papel a dizer que nos roubaram não sei quantos CFA’s. Depois da fronteira ainda fomos parados num controlo policial. “You pay you go” deve ser a cantiga em primeiro lugar no top Gâmbia. O Carlos Azevedo passou-se e insultou o polícia em português. “You pay you go o car#$%&%/lho!!, Vai para a p&&/ que te p&%&, vai-te f$&()=?, não pago nada!!”. Contra todas as expectativas, funcionou. Os mapa-mundi eram uma ideia que tinha tido o ano passado. Toda a gente nos pergunta de onde vimos, se atravessámos o deserto, quantos dias se demora e no fim querem trocar moradas. De maneira que um cartão de visita com essa informação toda seria utíl J. É um costume que me intriga desde que fui a Marrocos a primeira vez. Para que querem eles a morada??? Desde então tenho-a anunciado a centenas de pessoas e nunca ninguém me procurou! De qualquer forma também já perdi a vontade de dar nem que seja um cartão de visita aqui ao rapazito gambês: já me estava a querer cravar uns euros... O ferry atraca finalmente em Banjul e no desembarque somos interpelados bruscamente por um funcionário do porto “push the bike back” grita malcriadamente duas ou três vezes. “can you say please?” gritei-lhe o mesmo número de vezes, ainda mal disposto de ter atravessado o rio em reverse. Começo a pensar que não gosto destes gajos... e não gostei da capital deles. Banjul é uma cidade incaracterística e, claro, movimentada. Atravessámo-la pela estrada principal que estava pejada de carros que não andavam para lado nenhum. “Segunda circular à hora de ponta...”, vou eu resmungando enquanto metia segunda e furava entre o trânsito. De repente levei a segunda injecção de adrenalina da viagem: uma míuda aparece-me a correr de entre dois carros à minha direita. Travei a fundo e não iria conseguir parar. No limite, larguei os travões e faço um S para a esquerda convencido que ia malhar mas que pelo menos talvez a conseguisse evitar. Não aconteceu. Passei a milímetros dela e dos carros à minha esquerda. Fiquei lixado comigo – são aquelas coisas que não podem acontecer de moto em lado nenhum e muito menos em África, em viagem. Ao almoço, a disposição lá melhorou. A cerveja da Gâmbia é bem boa e arranjaram-nos umas febras de porco com batatas fritas que estavam óptimas. Enquanto esperávamos, olhámos os mapas tentando decidir um trajecto. Estávamos poucos quilómetros a Este de Banjul e podíamos continuar pela Gâmbia ao longo do rio, pela estrada cravejada de crateras ou descer ao Senegal. A conta do almoço ajudou a desempatar a questão. 12,5 Euros/cabeça. A Gâmbia estava a sair cara. “Vamos para o Senegal” foi o grito unânime, sobrepondo-se ao Best Of Jimmy Reeves com que a cozinheira insistiu em castigar-nos. Desta vez íamos preparados para vender cara a pele. Raios nos partíssem se íamos pagar bakshish na fronteira! Nem que lá ficássemos um dia à espera! Não foi preciso. Não nos cobraram nada. Há macacos nas árvores ao pé da fronteira. E ainda nos divertimos com os senegaleses. O oficial da polícia, ao sair do escritório olha de soslaio para o Teles e reconhece alguém. Incrédulo não diz nada. Depois abre a boca a medo e eu atalho “É o Figo, não é?” Grande risota! Fizémos um bocado de conversa de bola. É um tema fácil (até para mim, que aprendi o que era um fora de jogo aos trinta anos!) e põe os senegaleses bem dispostos e cheios de sentimentos fraternais para com os tugas. Especialmente se referirmos a eliminação que a selecção Senegalesa infligiu aos franceses no Mundial da Coreia! Repetimos a cena Figo na bomba de gasolina logo à frente. As pessoas são afáveis e bem dispostas. Pagámos em Euros e fizeram-nos o câmbio a uma taxa boa. Que contraste com a Gâmbia! O Carlos Azevedo tinha ouvido falar de uma espécie de parques de campismo geridos comunitariamente, aqui na região de Casamance, de maneira que perguntámos onde existiam nas proximidades. Acabámos por chegar mesmo ao lusco-fusco a um desses campos, em Baila. Os alojamentos estão cheios de míudos franceses e respectivos professores que cumprem alegremente um programa de “intercâmbio unilateral”. Unilateral no sentido em que os franceses visitam o Senegal e os senegaleses não têm dinheiro para ir a França. Enquanto combinávamos acampar, tivémos uma amostra de outro intercâmbio: os rapazes que estão a trabalhar nesse “campment” percebem português! Estudaram-no na escola, como segunda língua. Já só conseguem arranhar umas palavras mas compreendem as nossas frases simples. A noite foi passada à conversa com o professor de matemática. Conhece bem Angola e está para se desterrar para Madagascar onde a mulher arranjou emprego bem pago. Quanto a ele vai ficar desempregado. É uma situação invejável!!!

1 comentário:

  1. A diversidade e as diferenças sentidas ao vivo podem ter discernimento melhor para aqueles que assim as vivem como estrangeiros. Mas a verdade da nossa igualdade no desfecho final da nossa existência pode passar despercebida ainda que vivida ao vivo. De qualquer modo, a vida no planeta tem um destino magnífico. Basta que se pense onde humanos estamos embarcados voando no negro de um espaço sideral a 600km/s sem que talvez nunca pensemos nisto, ainda que percebamos nossa rotação e a viagem anual em torno do sol. Fiquem com Deus...:)

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