terça-feira, abril 26, 2005

Diario, dia 11 - De Baila a Mansaba (Guine-Bissau)

Já estamos na Guiné!! Não era este o plano mas não faz mal pois o nosso plano também não estava lá muito rigidamente delineado. De manhã saímos do tal campment de Baila por uma pista muito bonita em direcção a um fromager sagrado. Um fromager é uma árvore gigante, mesmo comparando com os embondeiros, e mais consistente que este. É do fromager que se constroem as pirogas que vamos encontrar. O tal, o sagrado, era de facto enorme mas acabámos por não saber de onde lhe vinha o ascendente. Pertencia a uma família muito bonita a quem vamos ter de enviar a respectiva fotografia. Entretanto passámos em Bignona, uma cidadezinha simpática, de tamanho médio e onde até conseguimos descobrir um ATM. Após algumas dificuldades técnicas lá sacámos mais alguns CFA's para o bolo comunitário. Enquanto esperávamos que o multibanco ganhasse vontade de colaborar fomos assediados comercialmente pela Fátima. Moça expedita que começou por declarar "os portugueses são os africanos da Europa". É um cliché conhecido, mas achei-lhe tanta piada que a deixei impingir-me colar e pulseira, regatear sozinha o preço e distribuir o troco por uns míudos que por ali esperavam! Devidamente enfeitados de artefactos tribais, fizémo-nos à estrada, para Este, em direcção ao parque natural de Niokolo Koba, a cerca de 300 kms. Estava um calor terrível e impôs-se uma pit stop nas margens do rio Casamance. Embora rápido, à conta de uns crocodilos que não vimos mas que nos disseram existir, o banho soube bem e, apesar do bafo quente, conseguimos avançar até uma terriola para almoçar. Arroz míudo com molho de farinha de peixe, pão e coca-cola morna. Estava muito calor! Arrastei-me até Tanaf, com a viseira fechada. Com o termómetro da moto a atingir as 7 barras e a água a acabar novamente, parámos para conferenciar. Estava provado que não fazia sentido rolar entre as 11 e as 16H00. E, nesse caso, para fazermos a quilometragem necessária e chegar à Guiné com tempo de tratar das formalidades de exportação das motos, não ia dar para entrar tanto para o interior do Senegal. A decisão tomou-se com dificuldade: vamos descer para a Guiné e tratar das papeladas. Depois ficamos com os dias que sobrarem para vadiar por lá. A fronteira desse lado, o senegalês, passou-se nas calmas. Apesar do Miguel exibir grandes molhos de Euros e CFA's para chegar ao passaporte :-), os gajos só se fizeram timidamente a uma gratificação. Como estamos a ficar cromos nisto das fronteiras despachámo-los num instante. Os 10 km's que se seguiram - pista em terra de ninguém - o Miguel fê-los alegremente desiquilibrado para a direita: deixou cair a mala esquerda e não deu por isso :-). Eu, que vinha atrás, atei-a à GS e só consegui devolver-lha na Guiné. O sol tinha-se baixado um bocadinho mas continuava a fazer muito calor quando chegámos ao posto fronteiriço de Farim, marcado com um cabo de aço atravessado na pista e tudo. "Boa tarde" dissémos nós. "Bóá tarde" responderam-nos eles. Faz sempre um efeito giro... não sei quantos milhares de quilómetros de casa, um continente diferente, um deserto pelo meio... e respondem-nos na nossa língua! Seguiram-se as perguntas da ordem, que nos haverão de repetir invariavelmente nos próximos dias, sempre que pararmos:"de onde vêm?", "de Portugal?!?!? Sempre na moto?!?!?", "Quantos quilómetros?" , "quantos dias?", "quem é do Benfica?" "você é do Sporting?"... Foi uma festa!... ... e continuou em Farim propriamente dito onde fomos levados à administração das Alfândegas para carimbar o bendito carnet. Fomos rodeados por dezenas de guineenses. O campeonato nacional (o nosso) está ao rubro e na Guiné a coisa é a sério: contabilizaram imediatamente as simpatias clubísticas da nossa comitiva. Como o tema é futebol, o nosso Figo postiço, o Teles, é logo identificado e, talvez por isso, uma série de gente ajuda o Miguel a rependurar a tal mala esquerda. Entretanto, eu e o Carlos Azevedo estamos em frente à secretária do Major das Alfândegas, com os queixos literalmente caídos. Estávamos a tratá-lo com as devidas mesuras: já era tarde e percebemos que estavam a dispensar-nos horas extraordinárias. Além disso temos aquela má consciência de povo ex-coloniador... e eis que o senhor pergunta: - Então... e foram à tropa? Eu e o outro reservista, em uníssono: - Não. Conclui o major: - Então não sabem o hino... o hino nacional. Antes de termos tempo de responder que sim, começa ele, acompanhado do Tenente que o secretariava: -"Heróis do mar, nobre povo, nação valente...". E assim continuámos, os dois tugas e os dois militares guineenses, até à estrofe dos egrégios avós! Surrealista, acho que agora é mesmo o termo. De seguida o Major ainda mandou o Tenente escoltar-nos ao ferry, à nossa frente, 4 piscas num carro civil, para fazermos 500 metros até ao rio Farim onde o pôr do sol dourava tudo. Estava a ser um dia bom. Do outro lado do rio começámos a cheirar o caju maduro. É a época das respectivas colheitas e nos próximos dias vamos acabar por nos habituar ao cheiro doce. Fizemos a pista até Mansabá, ao lusco-fusco, a dispensar "boas tardes" a pessoas espantadas e que cheiravam muito bem a caju. À entrada de Mansabá perguntámos se havia hotel, pensão ou estabelecimento do género...começaram a falar-nos em presidente, administrador...não percebemos muito bem mas afinal levaram-nos até à casa do administrador do distrito (em crioulo chamam-lhe "Présid"). Parece-me que funciona como uma espécie de presidente de câmara. Já é noite escura e não há luz eléctrica, mas percebemos que a casa dele é grande e que podemos lá ficar. O presidente prometeu descobrir-nos cerveja fresca e levou-nos a casa do secretário Domingos onde dentro de uma geleira apareceram umas Cristais fresquinhas: a festa continuou no alpendre do Présid onde cozinhámos jantar. O secretário Domingos juntou-se-nos para a sobremesa e acabou por levar para casa uma quantidade de comida que já não pensamos necessitar. Ficámos amigos. Dormi no alpendre, enquanto o Miguel ficava até às tantas a dar à língua com os nossos anfitriões. Foi um dia bom e estamos felizes de estar na Guiné

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