quarta-feira, abril 27, 2005

Diario, dia 12 - De Mansaba a Bissau

De Mansabá a Bissau são menos de duas horas que fizémos logo de manhã, pela fresca. A estrada, bem esburacada até ao cruzamento de xxxxx, é bem bonita. A Guiné é bonita, constatámos já sem surpresa. Tal como Bissau, que retém uma romântica patine e um sossego e uma limpeza pouco condizentes com a condição de capital africana. Mas, também, são só cento e tal mil habitantes. A zona mais agitada é o Mercado de Bandim, logo à entrada. As ruas são largas, com árvores nos passeios. Os edifícios são pequenos, na sua maioria vivendas de dois pisos e todos parecem das décadas de 40 a 60. Há uma zona mais antiga, Bissau Velho, junto ao porto. É para lá que vamos depois de duas cervejas e dois dedos de conversa com o Sr. Diniz na esplanada do Império, junto à Praça dos Herois Nacionais. O despachante que temos de contactar fica junto à Fortaleza d'Amura, onde está sepultado Amílcar Cabral. Aguardámos na rua que o Carlos Azevedo iniciasse o processo de negociações que vai fixar o preço do serviço de despacho. Durante essa espera, o Miguel foi testar a eficácia do dispositivo de segurança da Fortaleza d'Amura. Parou à porta e aprontou a máquina fotográfica... enquadrou a sentinela e só não disparou porque o soldado já estava a puxar a culatra e parecia querer disparar primeiro. Quando nos veio contar o episódio já tínhamos encontrado o Russo. O Russo, aka "o Soviético", é bem português. Chama-se João Russo e está na Guiné com um cunhado para implementar um negócio de reciclagem de ferro. Por enquanto está à espera que as máquinas que necessita lhe saiam da maldita alfândega. Quando nos viu, a mim e ao Teles, em cima das motos e percebeu que éramos tugas, ficou radiante e veio ao nosso encontro de mão estendida e alma aberta: '' João Russo, Motards do Ocidente!" apresentou-se ele. Eu, que da cena motoclubística só conheço os Meninos do Coiro, de Penedos, Alenquer, fiquei meio baralhado. Está bem que vínhamos de Portugal, e estávamos junto ao forte, e tal, mas não era razão para nos receberem com declarações épicas "As motos e os motards assinalados que da Ocidental praia lusitana"... Desfeita a minha confusão, o João, o Russo, ofereceu-nos logo estadia. Está numa vivenda em frente á Presidência da República, tem sítio para guardar as motos e vigilante privativo. Foi uma oferta sincera e fez questão que ficássemos logo com o número de telemóvel dele. Continuámos a ronda dos despachantes. Aliás, continuou o Carlos Azevedo, que nós abancámos o resto do dia no Tamar, uma cervejaria em Bissau Velho, que parece congelada no tempo desde os anos 50. Congelados não eram os camarões tigre que lá descascámos ao almoço. Está muito calor, já percebemos que a esta latitude, mesmo junto ao mar, entre as onze da manhã e as cinco da tarde estarão sempre para cima de 35°. Depois de mais umas voltas a investigar como levar as motos para Bubaque nos Bijagós, desistimos da ideia - não há ferry com regularidade, só pirogas. Um barco de pesca custaria para cima de 500 euros e parece-me que no processo de carga e descarga alguma moto se teria de se demonstrar anfíbia. Vamos sem moto, amanhã, de piroga. Regressámos ao que vai constituir o nosso ponto de encontro em Bissau, a esplanada do Império e as saborosas conversas com o Rocha Diniz, o proprietário. Recomendou-nos o Hotel Jordani, de modo que seguimos para lá para jantar, ver o Chelsea-Liverpool e avaliar o custo do alojamento. Essa avaliação leva-nos a aceitar a oferta do João, que ficou todo contente de nos receber. Na escuridão absoluta que se abate sobre Bissau tivémos dificuldade em descobrir a casa pois há alguma confusão entre o Palácio da Presidência (o edifício semi-destruído junto da Praça dos Heróis Nacionais) e a Presidência da República. Mas com a ajuda de um português funcionário da nossa embaixada e do dono do Restaurante Benfica Papalouca, lá chegámos. A casa é grande, um T4 com jardim murado, gerador privativo e uma reserva de água de alguns 2000 litros. Há cerveja no frigorífico, o que é muito conveniente para tomarmos o maldito anti-palúdico: hoje é dia de droga. Amanhã vamos para as ilhas!

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