quinta-feira, abril 28, 2005

Diario, dia 13 - De Bissau a Falacunda

Íamos para as ilhas, pensávamos nós enquanto tomávamos o pequeno almoço (Fanta, sandes de chouriço e café) no Império. O Sr. Diniz, que viveu nos Bijagós durante uns anos - construiu um hotel e tudo - conta-nos maravilhas de lá. Mas não havia de ser assim. Não havia ferry, o barco de pesca era caro, e as pirogas também não hão-de aparecer. Estamos quase no primeiro de Maio e os barcos andam todos a preparar a festa, trazendo gente para Bissau. Uma simples piroga para nos levar ao paraíso... não há. Ai é? Pois que se danem as ilhas. De qualquer forma estamos decididos a voltar à Guiné. Os Bijagós ficarão para a próxima. Por agora vamos... andar de moto. Voltámos a carregar a tralha e saímos de Bissau. O polícia na rotunda do aeroporto mandou-nos parar só para cumprimentar. Simpático, há-de repetir o ritual de todas as vezes que lá passarmos. Parece que noticiaram na rádio que quatro turistas portugueses andam de moto a visitar a Guiné: já somos famosos. Em Bambadinca há uma paragem de autocarros movimentada. Dezenas de mulheres com tabuleiros à cabeça vendem bananas, mangas, sandes de ovo e cebola, bolos, fritos, pão e bebidas. É como uma área de serviço mas muuuiiito mais barato. Aproveitámos e almoçámos rodeados por montanhas de crianças. Continuámos em direcção ao Saltinho, uma zona de rápidos no rio Corubal onde há uma pousada num antigo aquartelamento português. Quando lá chegámos fazia uma brasa descomunal. Mas havia cerveja fresca e o rio para tomarmos banho. A pousada é giríssima, numa colina sobre o rio. Estivémos quase a ceder à tentação de lá ficar, mas a nossa vida não é isto! Depois do Saltinho o alcatrão esburacado acaba e para nosso alívio começa a picada de terra batida. As estradas de alcatrão esburacado são muito cansativas, raramente se consegue passar de 3.a e as trancadas na suspensão, nos ossos e na roda da frente são terríveis. Por vezes dá para rolar na berma de terra batida mas com todas as cabras, porcos, galinhas e crianças que podem surgir do mato a todo o instante também não dá para arrear a concentração. Fazer estas estradas num carro nem quero imaginar!!! Estimo que a média horária seja metade da que fazemos na moto e o desconforto aumente para o dobro! Chegámos a Fulacunda ao fim do dia. É uma aldeia grande. O Sporting discute a meia final da taça UEFA dentro de momentos e eu quero ver o jogo. Logo eu, que não ligo pevide à bola! Ando a ficar influenciado com tanta conversa de futebol neste país! A acção vai desenrolar-se no barracão que contratámos para dormir. Um pequeno gerador à porta, uma antena, um televisor de 55 cm chegam para cerca de 40 ou 50 pessoas. Pagam-se 100 CFA para entrar. Com muita sorte, o Sporting lá arrancou o 2-1 para gáudio dos adeptos fulacundenses e insatisfação dos benfiquistas ferrenhos, a maioria a torcer pelos holandeses, malandros! Depois do jogo guardámos as motos dentro da barracão. Foi um bocadinho "casa roubada, trancas à porta..." porque já nos tinham rapinado umas luvas, uma garrafa e mais umas miudezas. Defînitivamente, não convém trazer solto nada que nos faça falta. Enquanto fabricávamos o jantar, houve projecção de telediscos, a partir de um leitor de DVD's. Viram os mesmos 5 algumas 10 vezes - umas coisas de uns rappers quaisquer, gravadas num qualquer Bronx e que me pareciam mais longe de Fulacunda que a Lua. Depois dos telediscos ainda começaram a projectar um filme estranhíssimo: uma espécie de Matrix, com actores de Hong Kong, legendado em inglês e dobrado em francês. Eu, que tenho uma má relação com a televisão, achei logo que os furtos que nos infligiram ali não são dissociáveis dos serões a ver TV. Está escuro como breu e não há água para lavar o focinho. Por hoje ficamos assim.

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