sábado, abril 30, 2005

Diario, dia 15 - Do Saltinho a algures a Sul de Pirada

Despedimo-nos do Uié e do simpático pessoal do Saltinho. Hoje vamos pelo menos até Gabu (Nova Lamego). Mas a gasolina está contadinha. Vamos a fuminhos até Bafatá, segunda cidade da Guiné. Sobe suavemente desde um arrozal nas margens do ria Geba, (o mesmo que desagua no canal de Geba em Bissau) e tem um encanto irresistível. Não tem gasolina de bomba mas achámos um bidon com super que chega para todos atestarmos. A minha GS tem-se queixado um bocadinho das octanas que não abundam. Se a solicito sem cerimónia, grila. Mas o punho já se habituou a não pedir demais e é um regalo ver o escape a queimar branquinho como acontecia na era pré-sem-chumbo, pré-ecológica. A estrada para Gabu é bonita, claro. Não sei botânica para descrever o que muda, mas há nuances na vegetação que nos cerca e é a vegetação que vai marcando as diferenças de que nos apercebemos. A Guiné não tem grandes acidentes de terreno, só suaves colinas. Penso que a maior diferença de cotas não ultrapassa os 300 m. De modo que a nossa percepção da paisagem é muito limitada pela estrada. É uma das razões que tem agravado a minha preguiça de fotografar. É que é difícil captar um panorama que não esteja limitado pela estrada ou picada. Até agora as excepções foram mesmo o Saltinho e Bafatá. Uma parte substancial da estrada até Gabu está em obras. Há uns sinais de velocidade máxima limitada a 20 km/h a que, obviamente, não ligámos nenhuma. Não estávamos à espera de controlo de velocidade, de modo que é com alguma surpresa que levamos o responso da agente policial no auto stop à entrada da cidade. -Os senhores viram a placa de 20 lá atrás? E nós, surpresos: - Nós vínhamos tão devagarinho!! --Mas vinham a mais de 20. Isso era irrefutável! Nem sei se me consigo equilibrar a 20 naquela gravilha! Tentámos com o nosso ar mais angelical: - Nós até vimos a poupar gasolina... Ela arrumou-nos, catedrática: - Mais importante que poupar combustível é cumprir o código da estrada. A diferença para Portugal é que, dali, a conversa derivou para as preferências clubísticas em vez de para sanções inibitórias e centenas de euros em multas. Despedimo-nos com sorrisos e passou-bens cheios de respeito por esta autoridade e a fazer um esforço sincero para nos equilibrarmos a 20 km/h. Gabu tem uma rua principal movimentada onde se vende tudo. A Varadero chegou lá com um furo na roda traseira. Na tal rua até há uma Michelin, uma daquelas barraquinhas onde arranjam pneus. Mas decidimos substituir nós o prego por um taco. Comprámos umas coisas para comer e aproveitamos o intervalo do almoço para reparar o furo. Até ver parece que resultou. Está muito calor (começa a ficar repetitivo, este diário...) e a pista para Pirada, no extremo Nordeste, é poeirenta e muito larga, com pouca sombra. Pirada é pouco mais que uma aldeia grande e não vendem água engarrafada. Mas atestam-nos as garrafas com água do poço. Estamos safos. Para beber já temos. Mas não chega para lavar o focinho no sítio onde decidimos acampar, no mato, uns quilómetros a SW de Pirada. Fez muito calor hoje e a pista desde Gabu era muito poeirenta. Não é a melhor noite para ficar sem lavagem, mas paciência. Vamos mas é gozar o sossego. Estas horas serão das poucas nesta viagem em que não teremos companhia. Quer dizer, companhia humana! Porque formigas foram aos milhares. Pelo menos é o que dizem os outros, que não têm mosquiteiro e tiveram de passar toda a noite no processo de decisão "fecho a tenda e morro de calor ou abro e as formigas matam-me". A mim apoquentaram-me umas pulgas imaginárias. Estava mesmo é muito sujo, daí os pruridos... mas nada de comparável aos tormentos das vítimas das formigas que, de madrugada, optaram foi por tentar dormir em cima da moto!!

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