segunda-feira, maio 02, 2005

Diario, dia 17 - De Bissau ao Cacheu e volta

Para mim, é o último dia da viagem. Tento sacudir a depressão associada ao regresso à santa terrinha, aproveitando para conhecer o canto mais a Noroeste da Guiné. O Cachéu, na margem sul do rio com o mesmo nome, foi a primeira cidade estabelecida pelos portugueses na Guiné, já lá vão 417 anos. Provando que não é só de agora que temos dificuldade em gerir a a regionalização, chegou a depender de Cabo Verde. Hoje em dia, a partir de Bissau, por terra, leva-nos cerca de duas horas e meia a atingir. Em Bissau atravessamos o mercado de Bandim, passamos a rotunda do aeroporto e cumprimos o ritual de parar para cumprimentar o respectivo polícia, que nos pergunta, preocupado, onde é que está o outro. Refere-se ao Miguel Casimiro. Aflito dos olhos, à conta das lentes de contacto e dos nossos hábitos pouco higiénicos, o Miguel ainda tentou vir também mas não tinha condições. Vai ficar na capital. Depois é o caminho que já conhecemos bem até Safim. Aí inflectimos para a esquerda, para NW em direcção a Bula. Até ao rio Mansoa rola-se bem. A estrada é nova, deve ter sido construída na mesma altura que a grande ponte Amílcar Cabral. Esta tem quase um quilómetro de comprimento e eleva-se umas dezenas de metros sobre o Mansôa. São tão raras as elevações naturais, que a ponte nos dá uma perspectiva bastante exclusiva das zonas de pântano e mangal que se estendem ao longo do rio. Sendo o pavimento de qualidade relativa, não perecebemos porque diacho é que a mala esquerda do Teles haveria de desconseguir logo a seguir à ponte. Andava óleo de travões solto lá dentro e deve ter atacado o plástico junto às dobradiças. Apanhámos os pertences e fechámos a mala com fita americana. Há-de aguentar! Depois de Bula, a estrada deteriora-se rapidamente até se tornar a pior sucessão de crateras que apanhámos na Guiné!!! Sempre a piorar até chegar ao Cachéu. Mas vale a pena. Trata-se de uma vila pequena, com um forte português bem conservado, um ancoradouro que faz de praia com uma larga praça adjacente e uma esplanada onde almoçámos. Enquanto isso, já conseguimos perceber que numa mesa próxima se discutem as prestações das GS’s. Ouvimos repetidamenente “Duzentos Quarenta!!”. Os guineenses e os senegaleses acreditam todos que as motos têm caparro para espremer os respectivos velocímetros. O que até é giro porque a Honda, mais consciente do que a BMW dos chassos que produz, decidiu atribuir uma escala mais realista à Varadero (que até anda mais que as GS’s). Fica-se pelos 220 enquanto que as GS´s têm quadrante até aos tais 240 que tanta admiração provocam no pessoal. Mas hoje não temos a Varadero para humilhar. Na mesa do lado, no entanto, uma voz sensata declara em crioulo que uma 250 cc seria mais adequada ao dia a dia da Guiné. Quem assim o diz é um espanhol com ar insh’Alah, o único branco na mesa de pescadores. Também é motard, andou um ano e meio a vadiar pela europa numa (FZ?) FZR dos primórdios. Percebemos (e ele confirma!) que está completamente assimilado. Vive há 5 anos no Cachéu. Trabalha na faina e não tem saudades nenhumas de Málaga, de onde é oriundo. Diz que há coisa de dois anos fez um lá um mês de férias e se ia passando. “Lá as pessoas vivem uma vida inteira num prédio e não sabem como se chama o vizinho da frente!! Vão ao supermercado e esquecem-se lá dos filhos!!! Náh!! Aqui está-se bem. É uma existência decente.” Diz-me o cabrão. A mim. Que me vou embora daqui a bocado. Bem... adiante. Vamos para a praia aproveitar o sol. O que temos à frente não é o mar. É o rio Cachéu, que aqui já leva uns kilómetros de largura e quando encontrar o Atlântico já terá engordado bastante mais, para um delta larguíssimo. Como o feriado do 1 de Maio foi transferido para hoje, começa a chegar muita gente para fazer praia. Os adolescentes trouxeram jerrycans de 20 litros de vinho de caju e estão todos a tripar. Nós temos que regressar a Bissau. Mas ainda vamos ver outra curiosidade: o cemitério das estátuas. Depostas aquando da independência estão agora estacionadas ao pé do forte. Serão para aí o Bartolomeu de Gusmão, o Nuno Tristão e há um gajo que parece o Estaline mas deve ser o Serpa Pinto ou outro herói da conquista colonial... Segue-se a gerra dos buracos. Vou pensando que se a moto tiver um furo ou outro amok, já vou ter de inventar um programa alternativo, como cravar uma das outras motos para conseguir apanhar o avião. A viagem toda condicionada à necessidade de apanhar o avião no dia 2 e neste momento não tenho margem nenhuma. Bah! Isto dos prazos não faz sentido nenhum. Nenhuma viagem deveria ter o fim anunciado. É como nascer-se sabendo-se o dia em que se morrerá. Chegados a Bissau, só está o guarda, o Young, no enclave “soviético”. O Young já não é novo mas o João não confia nele para lhe deixar as chaves. De maneira que não temos como entrar. Temos de ir procura-los. Começámos pelo Colete Encarnado, nada. Cravamos uma chamada de telemóvel a uma amiga do João (nenhum dos operadores portugueses tem acordo de roaming na Guiné). Estão no Tamar – o Miguel desviou-os para lá, para comerem uns camarõezinhos, Já não tenho muito tempo, mas também não tenho muito que arrumar. Tenho é que imperativamente tomar um banho, jamais me deixariam subir ao avião no estado em que estou! Decidimos abreviar o jantar. Fica só por camarões. Mas como os rapazes tinham esgotado o stock do Tamar, voltamos para o Colete Encarnado. Bom, depois em meia hora tomo um banho (a baldes, que para ajudar a água faltou hoje todo o dia), arrumo as tralhas, escolho a roupita mais asseada que ainda sobra e ala para o aeroporto. O Check-in é às 22 para um avião que só há-de tirar as patas do chão à uma e meia da madrugada! A Varadero dá-me uma boleia para o aeroporto. Despeço-me dos outros, com o peso na consciência de terem de ser eles a despachar-me a moto, mas invejoso porque eles ficam e eu tenho de ir. Usurpei um banco inteiro no aeroporto e consegui dormir um bocado. Já no avião, deram-me um daqueles lugares a seguir à saída de emergência e as costas da cadeira não deitam. Não consegui pregar olho. Chegámos a Lisboa já muito tarde. Fui a casa dormi três horas, tomei banho e fui trabalhar. Parece que estou noutra galáxia.

8 comentários:

  1. Boas pessoal!

    Ainda não li tudo, mas para já estou sem palavras! Brutal! Muitos Parabéns pelo excelente relato.

    Cumptos em V

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  2. Boas pessoal!

    Ainda não li tudo, mas para já estou sem palavras! Brutal! Muitos Parabéns pelo excelente relato.

    Cumptos em V

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  3. Helga Candeias12:32 da tarde

    estou fascinada com as fotos...da entrega total. Parabéns!

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  4. Nossa fiquei impressionada com a viajem de vcs...achei o máximo e tbm muito importante para cada um acho eu....e apesar disso o mais lindo de tudo é a Emoção...Parabéns...Parabéns...gostaria muito de conhece-los...bjs com carinho.
    Baby de Carla.

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  5. Simplesmente FANTÁSTICO !!!

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  6. Olá Pessoal,

    Primeiramente Parabéns pela viajem!!
    Pretendo fazer uma viajem parecida.
    Saíndo de Natal(Brasil) senguindo para Venezuela, Peru, Colombia e etc..
    A viajem tem duração de 23-26 dias.
    Se estiverem interessados em me acompanhar me escrevam.
    rreiniger@bol.com.br
    O Site do nosso motoclube é www.mototribo.com.br

    Parabéns novamente,
    Abraços,
    Rodrigo

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  7. incrivel, simplesmente um dos melhores relatos que já li.
    no filme "chá no deserto" do bertolucci... é dito ás tantas que a diferença entre um turista e um viajante é que o turista já sabe quando vai embora. embora adora-se ser viajante, não me importava de ser turista como tu.
    luis reis

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  8. Leonardo Castanha5:13 da tarde

    Ótimo relato! Me divirto lendo seus relatos com uma caneca de café e alguns biscoitos.. Um dia irei a Africa!

    Abraço amigos

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