quinta-feira, abril 26, 2018

A rainha faz anos.

Londres sempre foi uma caixinha de surpresas e desta vez não foi diferente. Afinal não é todos os dias que se acaba num quarto com 5 mulheres, uma das quais profissional de dança no varão...



Mas calma, nada de confusões! Tudo começou porque marquei uma cama num hostel em vez de um quarto num hotel. Os hostels são sempre bons locais para conhecer pessoas e uma excelente opção quando se viaja sozinho. Além de muito mais baratos servem bem o propósito de quem quer só uma cama confortável para dormir depois de passar o dia a viajar ou a explorar uma cidade.
Não esperava é me me colocassem num quarto misto. Não me estou a queixar, foi até bem mais agradável do que partilhar o quarto com backpackers que só tomam banho quando a rainha faz anos... e hoje, coincidência das coincidências a rainha faz mesmo anos. 92 mais precisamente.



Em resultado disso a cidade esta um caos, centenas de policias armados, barreiras anti veículos e ruas cortadas deixam bem claro que Londres não esqueceu os atentados recentes. Alem do aniversário da rainha também acontece a maratona de Londres e se umas ruas não estão cortadas por uma razão, as restantes estão pela outra.

Eu cheguei cedo, dei uma espreitadela à Tate, visitei umas lojas de fotografia velhas conhecidas na Oxford, almocei uns morangos no Hyde Park e tinha planos de visitar a Royal Geographical Society antes de chegar ao hostel. Este é daqueles lugares que não faz parte dos roteiros turisticos habituais, mas daqui partiram exploradores notáveis como DarwinLivingstoneStanleyScottShackletonHunt e Edmund Hillary.



Está um dia estranhamente solarengo para Londres, nem uma nuvem no céu e 22 graus que me castigaram enquanto pedalei estas voltas todas numa daquelas bicicletas de aluguer com a mochila às costas. Preciso de um banho... afinal de contas a rainha faz anos :)

Chego finalmente ao hostal e enquanto me preparo para o duche oiço um barulho e reparo que não estou sozinho no quarto. A Anitta, uma simpática e cansada moça húngara, descansa no topo de um treliche depois de um dia a caminhar por toda a cidade. Quando volto do duche a coitada da Anitta já dorme.



Eu saio para jantar no famoso Ace Café nos arrabaldes da segunda circular lá da zona.
O famoso Ace Café ainda tem aquela energia dos anos 40 e 60 quando era o ponto de encontro dos motociclistas rockers e racers de Londres. Vale a pena ficar a conhecer a historia deste marco motociclistico, mas não vão com excesso de expectativas :) O espaço é muito semelhante a um tipico café americano vintage com alguns toques british. Grande parte da comida é fast food. Comida boa, saborosa, caseira, mas fast food. Já a cerveja é grande, consistente e lenta...como deve ser uma Guiness no ponto :)



Uma loja de merchandising ajuda a fazer crescer a marca Ace Cafe que ja tem lojas em Orlando, Barcelona e... Pequim. Enfim é daqueles lugares icónicos que temos de visitar, mas uma vez deve chegar. Oxalá nao se torne uma espécie de Hard Rock Cafe e perca a alma que o tornou conhecido.



Volto para o hostal e o quarto ja está cheio, nao de gente mas de roupas, sapatos e maquiagem de duas teenagers inglesas que pelos vistos usam o hostal como camarim para as sua saidas de sabado à noite. Desço novamente, as miúdas precisam de privacidade e eu nao tenho sono. Na suposta sala de convicio do hostal ninguem convive... está todo agarrado ao Netflix que passa numa tela gigante. Isto dos hostels está mesmo mudado! Felizmente ao lado do hostal fica o Bar 190, um conhecido point onde vários musicos britanicos conviviam e muito nos loucos anos 60. Entre eles os jovens Rolling Stones que aqui apresentaram o seu album Beggars Banquet em 68. Termino a primeira noite da viagem a beber um gin no mesmo sofa onde o Sr Jagger e a sua gang devem ter tomado muitos. 



Sou o primeiro a acordar no quarto, dormi que nem um anjo e nem dei conta que entretanto chegaram mais vizinhos, 3 rapazes e 5 raparigas espalhados por beliches triplos. Fujo para o duche e preparo a mochila rapidamente para nao acordar ninguem. A Anitta aparece no pequeno almoço e simpaticamente faz-me companhia. Ficamos à conversa, é a sua primeira visita a Londres, trabalha como engenheira informática em Budapeste, é professora de pole dance e tambem tem voo as 6 da tarde como eu. Decidimos sair juntos e fugir para a outra margem do Tamisa onde não há maratona nem tanta confusão,  ela quer ir à torre de Londres e eu à Tate Modern e fica tudo a caminho. 



Foi um excelente dia, nem eu fui à Tate nem ela foi à Torre mas pedalámos imenso, conversámos mais ainda e desfrutámos do raro sol londrino num piquenique descontraido junto ao rio. Trocamos telefones e despedimo-nos com promessas de visitas a Budapeste e a Lisboa. 


Isto é uma  das coisas que as viagens tem de melhor, as amizades simples e desinteressadas que ganhamos pelo caminho. Foi um bom inicio de viagem, agora vamos lá enfrentar um voo de 12 horas...

terça-feira, abril 24, 2018

Voltou o desassossego..

Sabem o que pode acontecer quando se está no meio de um ciclone, presos horas e horas num aeroporto perdido algures no Indico? Tricam-se umas chamuças locais, bebe-se uma cerveja... e ficamos com uma vontade súbita de escrever num blogue que já tem 14 anos e não vê uma linha nova há mais de quatro :) 



Bom, para começar tenho que confessar que esta viagem não foi propriamente planeada...  

A verdade é que depois do ano passado nunca mais me voltei a entusiasmar sériamente com viagens. 

Ok, dei uma volta pela California e parques do Oeste Americano, fui à Alemanha, a São Tomé e a Roma, mas sempre com um sentimento estranho que me deixava pouco emotivo e até algo desinteressado. Estava como que dormente, sem vontade de nada... precisava de ter algo que me voltasse a despertar o verdadeiro interesse por viajar, por explorar, por descobrir... enfim algo que me desassossegasse. 



Por isso e sem nada de específico na cabeça, deambulei pela net aos serões à procura de voos económicos. Buscava algo desconhecido, de preferência com mar e algures perto do equador :)



Encontrei uma opção porreira! Miami, voo direto de Lisboa que com uma ligação barata, me deixava em Porto Rico. Lí algures que por aqueles lados não é difícil encontrar espaço num veleiro para ir descendo pelas ilhas virgens Britânicas,  Antigua, Barbados... quando acabasse o tempo um voo de regresso a Miami não deve ser nenhum fortuna. 
Deparei-me também com outra opção que me dava a possibilidade de conhecer um outro lugar que sempre me entusiasmou, Madagáscar. 



A bem da verdade o voo não era pra Madagáscar, era para as Maurícias... Não sou grande fãn de ficar parado na praia mas por pouco mais €300 não seria assim um grande sacrificio :) Mais alguns serões de investigação e descobri um voo local para Madagáscar com escala na Ilha Reuniao que encaixava nas datas por apenas €150. Já tinha contactos antigos para conseguir uma moto em Madagascar e tenho amigos com moto na Ilha Reunião... está feita a escolha!



O voo para as Maurícias começa em Londres mas nem isso me deixou indeciso, aproveito para matar saudades da cidade e explorar uns lugares longe dos pontos turisticos.
Sabem aquela ansiedade interminável que nos põe à procura de mapas e informações na internet? Aquele bichinho na barriga que não nos deixa descansados enquanto não partimos? Pois é parece que voltou! 

quinta-feira, setembro 25, 2014

No reino do Sião


O Eslovaco tinha razão, a Tailândia é realmente mais fresca! Na verdade não é assim literalmente, o computador da moto continua a dizer que estão 35 graus mas a sensação é de bem menos.  Continuamos a ritmo acelerado, o Sunny marca o passo nos seus habituais 120 em permanente gincana entre scooters, carros, camiões e animais.


Nós finalmente aclimatamos. Já acordamos naturalmente cedo, sem aquela sensação de que estamos a acordar às 3 da manha para andar de moto. Avançamos para Norte pelo meio das montanhas de "limestone" que tanto caraterizam esta região do planeta, evitamos a cidade de Krabi e seguimos para uma pequena e bem mais pacata baía a norte da cidade.


Um almoço grandioso pede o primeiro mergulho da viagem na praia bem em frente do restaurante. É nesta baía povoada por milhares de pequenas ilhas que saltam acima da linha de agua que fica a tantas vezes fotografada Ilha do James Bond  Ko Khao Phing Kan, famosa depois do filme "The man with the golden gun" gravado aqui à 40 anos atras. 


Tem de ficar para depois, vamos adiar para a descida, o objectivo do dia é Rangon, a cidade fronteiriça que nos vai servir de base para tentar a entrada no Myanmar. A estrada corta a floresta tropical por entre as montanhas do Parque Natural de  Si Phang-Nga.


Como é normal numa floresta húmida... está húmido :) nuvem cobrem os cumes e uma neblina espessa sai do asfalto como se estivesse a transpirar. No ponto mais alto reencontramos o sol que acaricia um modesto templo com um Buda negro. Do lado uma torre permite subir mais um pouco e apreciar a vista acima da copa da floresta.


A respiração acalma, com compassos longos e profundos inspiramos longamente os odores da terra húmida e pela primeira vez nesta viagem sinto a paz e tranquilidade. É por momentos destes que sou tão viciado em viajar.


O momento Zen somado com o mergulho depois do almoço torna definitiva a nossa entrada em modo "vadios" ;) deixamos de viajar e passamos a vadiar. Os condutores kamicazes, as scooters e as manobras intempestivas dos outros condutores passam a ser administradas com muito menos ansiedade... Tudo parece que diminuiu de velocidade, como se tivéssemos mudado de rotação de um gira discos para Long Play.


Tudo nos parece agora perfeito, até a chuva tropical que nos recebe nos últimos quilómetros antes de chegar a Rangon. Paramos, protegemos passaportes, gadjets e documentos em lugar seco e seguimos viagem sentindo a chuva quente escorrer por dentro do casaco aberto. Está-se bem!


Rangon recebe-nos em festa, é a semana das festas da comunidade chinesa e toda a cidade está decorada a rigor. Rigoroso parecia também o policia que nos mandou parar num controlo de estrada a escassos metros do nosso hotel. "International drivers license please", chiça acertou em cheio com a única coisa que eu não tenho.


No worries, sorrisos, gestos cordiais e muitos Sawasdee  depois (saudação em thai) a minha carta portuguesa passa a ser válida :) Agora é tempo de descansar que amanha é um importante, vamos tentar entrar no Birmânia, Myanmar ou Burma, como preferirem chamar à antiga provicia do Reino do Sião que fica do lado de lá deste canal do Mar de Andaman. 




Enviado do meu iPad

terça-feira, setembro 23, 2014

Sunny 120

O Sunny e Fadzil vão nos acompanhar ate à Tailandia, o Sunny tem uns contactos na fronteira com o Myanmar e nós vamos tentar atravessar para lá, inshala. O plano é subir rapido e depois descer de volta para sul num zigue zague mais calmo entre a costa do mar de Andaman e o Golfo do Sião.


Ja viajei com o Sunny mas ele ia comportado porque era o meu territorio, agora a situaçao é inversa, estou nos seus dominios e quem manda é ele. E manda bem, manda aliás muito bem, uma conduçao certinha sempre, mas sempre a 120.
Não importa se há transito, se há chuva, se há cidades, é sempre a 120... Parece alguem que eu conheço aí de Portugal que diz q tb nunca passa dos 120 ;)


Mas aqui é demais, muito acima da velocidade sensata quando os outros condutores acham que os piscas e os espelhos sao meros acessorios decorativos :) Nunca me deparei com tamanha confusao nas estradas, as milhares de scooters vindas de todas as direcoes tb nao ajudam a montar uma imagem ordenada do quer que seja... Risco continuos, duplos continuos e até separadores em zebra delimitando as faixas nas cidades sao absolutamente ignorados por estes condutores alucionados.


Ultrapassam pela esquerda, pela direita, por onde há uma nesga de espaço, sao totalmente imprevisiveis e quando menos se espera invertem o sentido e viram aleatoriamente sem qualquer ameaça previa, viram e pronto. Outra coisa curiosa é os separadores das vias rápidas, duas faixas para cada lado e um separador de relva no meio, um obstaculo que os locais devem achar algo despropositado e até perigoso, impedindo-os de fazer inversão rapidamente sem subir e descer passeios e pisar relva.


Por entre eles Sunny e Fadzil avançam nos seu 120 fixos, tranquilos, como se nada fosse. Eu já apanhei alguns sustos e demoro mais, tento prever as manobras mais inuzitadas possiveis e só depois avanco para a ultrapassagem. O Sunny em algumas coisas faz-me lembrar o meu amigo Teles,  pode estar a chover, pode não haver nada para ver nem gasolina para meter, mas a cada hora tem de parar para fumar ;) smooke, ride and eat, that what we do!


Mas nem tudo é assim tão mau, a gasolina custa 0,20€ o litro e as motos nao pagam portagens nem sao alvo de inspeçao pela policia, quanto ao resto, é ganhar as manhas locais e andar sempre de olhos bem abertos ;)


Os almoços sao simples e deliciosos, mercados de rua, restaurantes familiares, a cozinha daqui é qualquer coisa de divinal para quem como eu gosta (muito) de picante. 


Avançamos rapidamente para norte e chegamos ja no fim de tarde à fronteira da Tailandia onde a paisagem muda radicalmente, das suaves montanhas malaias para os picos de rocha que surgem do meio da floresta tropical. A temperatura mantem-se nos 35 graus, mas a sensaçao termica baixa bastante, ficando bem mais agradavel.


Encontramos um Eslovaco na fronteira que diz que a Malasia é um forno comparada com a Tailandia, espero que seja verdade.

KL para os amigos.

KL é como os locais chamam a Kuala Lumpur, a capital da Malásia e, provavelmente, a capital do sudoeste Asiático. A primeira impressão não é das melhores, 35 graus e 100% de humidade que nos atingem em cheio e nos deixam sem ar assim que saímos do aeroporto. As 7 horas de diferença horária e quase 24h entre voos e ligações também não nos deixa muito receptivos ;)


É uma cidade grande e plena de contrastes, de um lado arranha céus incriveis, do outro mercados de rua tipicamente asiaticos, numa esquina um Aston Martin ultimo modelo, noutra um tuc-tuc desengonçado...


É aqui que islâmicos, budistas, hindus e cristãos convivem em plena harmonia. Pode parecer presunção afirmar isto assim com apenas 3 dias de cidade, mesmo tendo sido tão intensos, mas eu tenho um infiltrado que vive em KL à 41 anos, o Sunny.


Sunny Oh é uma referencia para todos os viajantes de moto que passam pelo sudoeste Asiático, à mais de 40 anos que mantém uma oficina que começou pequena e é agora apenas e só a referencia no ramo na Tailândia, Malásia e Singapura.


Sunny Oh é tambem o patriarca da "dinastia Sunny" uma familia de 3 gerações que nos recebeu de forma soberba durante estes dias.


Este foi apenas um dos mimos que recebemos deles, um pequeno almoço típico chinês com toda a família Oh e com 15 pratos tradicionais, todos d e l i c i o s o s!


KL pode ser uma cidade fantástica, com uma diversidade incrivel e um vibração genuína, mas sem duvida o melhor de Kuala Lumpur tem nome, chama-se Sunny Oh dinasty ;) thank you all Oh dinasty!
Amanha começamos a rodar para norte a caminho da Tailandia, era para ser com uma bela BMW R100GS PD mas ainda nao esta pronta para enfrentar a viagem, por isso lá terá de ser numa 1200gs da coleçao do Sunny :)





terça-feira, setembro 02, 2014

Indochina, o fim do jejum.


Reza a lenda que Parameswara, um principe da Ilha de Sumatra, viajou para uma caçada e enquanto descansava sob uma árvore próximo a um rio, observou um pequeno veado-rato empurrar um de seus cães de caça rio adentro. Impressionado com a coragem do animal e com o que considerou um bom presságio, Parameswara teria decidido fundar ali um império, chamando-o Melaka, nome da árvore sob a qual ele se havia abrigado.


É sobe as mesmas árvores em Malaca, onde portugueses desembarcaram em 1511, que este "projecto" (leia-se, desculpa ;) tem intenções de iniciar e terminar a sua rota. Pelo caminho 8 países com uma diversidade cultural, étnica e religiosa incrível. Uma terra povoada por sultões e dragões, um território com uma exuberância natural soberba que contrasta com a simplicidade e simpatia do seu povo.


Apesar de já ter viajado pela Tailândia e pelo mar da Andaman, esta é uma das regiões que sempre coloriram o meu imaginário e onde sempre desejei rodar de moto. O karma quis que no ano passado o meu caminho se cruza-se com o de Sunny Oh, um motociclista malaio com quem partilhei uma semana de viagem de moto pela Europa.

Homem experiente e viajado, com um sorriso permanente e viciado em "Bacalau", o Sunny tornou-se um bom amigo mas cometeu o erro (coitado) de me dizer a frase: "...quando fores à Malásia tens lá moto..."


Vou começar pelo sul, pelo estreito de Malaca, as metrópoles de Kuala Lampur e Singapura, subindo de volta pelo golfo da Tailândia até à ilha de Ko Samui. Depois atravesso a península para espreitar o Myanmar antes de voltar a descer pela costa do Mar da Andaman até às areias de Phuket e Krabi. Em Penang vou investigar o ferry para Sumatra e se for possível, descer atravessando a ilha Indonésia de volta a Malaca.


Para o ano fica a segunda etapa, Cambodja, Vietnam, Laos e o norte da Tailândia... mas sem pressas, logo se vê.

Depois de quase 3 anos de jejum exploratório é tempo de voltar a vadiar.

Dia 17 começa a faina!

Paragem Forçada

Em vez de acordar amarrotado depois de um voo de 12 horas até ao Bornéu como tinha planeado acordei numa cama da uci do Hospital  dos Lusiad...