terça-feira, dezembro 06, 2011

Um pé no Kalahari

Sabem aquela sensação de constipação forte em que mal conseguimos respirar? Pois é como normalmente me sinto depois de um ano de trabalho intenso. Partir é como o primeiro sinal de recuperação. Mas não ficamos logo bons, há aquela fase chata do nariz que pinga, do frio nocturno e das dores nas articulações. Um pouco como os primeiros dias de viagem em que ainda não estamos integrados e sentimos aquela ansiedade nervosa misturada com uma impaciência estranha. Só ao fim de alguns dias, tanto na constipação como nas viagens conseguimos atingir uma sensação de conforto... conseguimos respirar. O Kalahari foi um bom remédio, 2 dias de total isolamento meterem a minha cabeça no sitio e comecei finalmente a viajar. Atravessar este deserto requer algum estudo prévio, as distancias são enormes e os pontos de apoio e reabastecimento muito escassos. Mesmo o tanque de 20 litros não chega para as 3 etapas de 400kms e por isso tive de recorrer a um jerrican e a umas garrafas de coca-cola recicladas e lá consegui chegar a bom porto. A limitação de autonomia não deixa margem para grandes explorações, deu para fazer alguns atalhos por pistas mas a grande maioria das distancia foi feita na Trans-Kalahari road. Por aqui as pistas surpreendem pela dificuldade, a areia do Kalahari não é fácil e sinceramente não estava à espera de tanta, julgava que eram mais estradões com algumas zonas mais complicadas. Tambem os há mas são as vias de acesso a aldeias ou vilas no centro do Kalahari, depois das vilas volta a areia fofa e revolvida e o deserto puro. Tive sorte com o tempo, os 38º foram suavizados com um céu dramaticamente carregado que chegou a vias de facto em 2 trovoadas que jorraram forte e feio. A primeira ainda soube bem mas na segunda tive de recorrer ao impermeável. Passei a noite em Kang, uma pequena vila bem no centro do Kalahari. Para quem já foi à Mauritânia é uma espécie de Barbas, um posto de combustível rodeado por algumas pequenas lojas no meio do nada. O povo San, habitante desde tempos imemoriais deste deserto foi empurrado para estas vilas pelo governo que loteou o país em supostos Parques Naturais onde os San não podem caçar nem fazer furos para captar água, mas os endinheirados turistas podem dar uns tiros nuns elefantes e uns mergulhos nas piscinas dos luxuosos resorts que apareceram no meio do Kalahari. Um pouco como os nativos americanos e os aborígenes australianos os San estão marginalizados e abandonados à bebida e à decadência dos hábitos da moderna civilização. Fast food tornou-se o prato nacional na região e há mais licour shops do que mercearias. Tentei ficar a conhecer um pouco melhor os San em Ghanzi, onde existe um museu e um centro de interpretação do povo San mas para variar estava fechado ao domingo. Conheci alguns pequenos San pelo caminho, ajudaram-me a esticar a corrente e fizeram a reportagem fotográfica de um reabastecimento. Agora estou em Maun, a capital do Okavango onde vou passar 3 dias. Já venho instruído pelo Nicolas para um tour de Mokoro pelo delta onde parece que podemos acampar junto com os elefantes bem no meio do delta. A Mokoro é a canoa típica do Okavango, construída de um único tronco e conduzida com um pau longo e muita mestria pelos San que ainda habitam a região. Para já vou desfrutar do hostal e da tenda com vista para o Rio Okaavango...

sábado, dezembro 03, 2011

A gestão do imprevisto.

O imprevisto está sempre presente neste tipo de vadiagens e nada melhor que acontecer tudo de seguida para abrirmos a pestana logo desde o inicio. Um telefonema bem cedo fez cair por terra a visita ao Leshoto, o Phillip ligou para um amigo dele lá no cimo que nos diz que provavelmente demorarei 3 dias a fazer o que tinha previsto fazer em 1. Dias que não tenho. Sem problema, sigo para norte contornando a chuva. Sem grandes paragens deixo as montanhas que envolvem Durban e sigo por um gigantesco planalto a fazer lembra o Oeste Americano. A grandiosidade é tal que ando várias horas sem mudar grande coisa, enormes fazendas bem tratadas interrompidas aqui e ali com estas montanhas escarpadas no meio. Para quem estava à espera de ver aquela África confesso que fiquei um bocado desiludido. Tudo demasiado organizado, tudo demasiado europeu, só a comida é que em vez de europeia é americana.

Chego com o pôr do sol a Lichtenburg já bem perto da fronteira com o Botswana. Está a decorrer o Diamonds Festival e há uma feira popular montada na praça principal onde finalmente consegui provar comida local. 50 Rands deram para 3 sacos de vários tipos de carne seca de tudo o que é animal africano... é bom e prático, fui roendo enquanto me misturava na feira. Passar despercebido por aqui é relativamente fácil, ele há loiros de olho azul, indianos, negros retintos e outros nem tanto, árabes com burka, árabes sem burka e claro um careca português cansado, afinal de contas acabou de fazer 800kms numa moto magrela. A manhã acorda com um sol violento, são 8 da manha e já estou a suar. Arranco rápido depois de calcular que tinha uns 5 lit. no tanque e 80kms até à próxima bomba. Calculo errado!! A bomba fica mesmo a 80km mas os 5 litros só aguentaram 50 kms.

Obviamente que xinguei o Nicolas com todos os nomes que me consegui lembrar em portugues de Portugal e do Brasil. Enche a moto com viadagens de escape de competição e kit dynojet e agora com tanque maior deve ter a mesma autonomia que com o pequeno. Seu capeludo teimoso, tá vendo no que deu tua teimosia!!! Agora se arruma com 250kms de autonomia! Nada como duas horas ao sol para acalmar, xingar a minha estupidez e acalmar o ritmo da viagem. Assim que entrosei o estado de "que se lixe, tenho tempo" comecei finalmente a raciocinar. Saquei do tubo do respiro e soprei a ver se pegava... Pegou e fez ainda 8kms até ao cruzamento com uma aldeia. Poucos minutos estava eu e a moto num reboque a caminho da bomba de gasolina mais próxima. Finalmente começa-se a sentir Africa, acabaram as mega fazendas e as ruas das vilas já são animadas com aquela musica a bombar e a simplicidade tipica de Africa... assim sim! A fronteira foi rápida e simples, carimba passaporte, escreve aqui a matricula da moto e boa viagem! O escape para alem de me já ter ensurdecido afugenta tudo o que é animal das redondezas, logo na entrada do Botswana um grupo de macacos grandes na beira da estrada sai a xingar o Nicolas... só pararam longe, nem deu para fotografar... Agora sim, estou a entrar em África, cidades confusas, estradas ruins e muito som e cor para qualquer canto que se olhe... ah e por falar em olhar, o Kalahari está à vista!

sexta-feira, dezembro 02, 2011

26 horas depois... de volta a casa.

Não, não estou em Lisboa, estou a mais de 9.000 quilómetros de Lisboa na casa do Phillip Symons, da Joaleen e da pequena Mayland em Durban, na costa Leste da Africa do Sul. Não encontro nenhuma expressão melhor para definir esta sensação de conforto, de acolhimento e de amizade pura com que mais uma vez fui recebido. Bem sei que já repeti esta frase inúmeras vezes, mas que se há tipos com sorte, eu sou definitivamente um deles, tenho amigos de uma qualidade insuperável. Obrigado Phillip, Joaleen e Mayland. O Phillip é o irmão do Elmer, um amigo que acolhemos em 2006 durante a sua participação no Dakar ainda como mecânico. Em 2007 ele voltou como piloto e já não era visita, era da casa. Bem integrado no nosso circulo de amigos, participámos intensivamente na sua preparação para o Dakar. Ele de certa forma estava a viver o sonho de todos nós, entusiastas desde tenra idade do rally mais duro do planeta, e com ele seguiu um pouco de cada um dos que passaram os serões lá na garagem. Quis o destino que o Elmer nos deixa-se enquanto concretizava o seu/nosso sonho, mas nós não deixámos e desde então ele vive um bocadinho em cada um de nós. Neste reencontro com o Phillip ele esteve bem presente, degustou aquela garrafa de vinho connosco, ajudou a preparar a moto, partilhou este serão delicioso em família e amanhã guiará o meu caminho pela sua terra... sempre com aquele sorriso de puto bem comportado. A moto está pronta, o incansável Michael da Honda Durban já tinha tudo preparado e foi só carregar e andar. É incrível como o cansaço de 26 horas entre aviões e aeroportos se dissipou assim que andei 20 minutos de moto. Obrigado Michael, a Lady está uma belezura :) Amanha, se a trovoada que cai neste momento permitir, subirei ao Roof of Africa, ao Lesotho por umas pistas onde o Elmer foi diversas vezes campeão de enduro e onde foram espalhadas as suas cinzas. O Phillip já me indicou o caminho, a moto está carregada e eu tô ansioso por começar.

sexta-feira, novembro 25, 2011

Travelling light

A preparação de uma viagem é como um prólogo..., a recolha de informação, as leituras e mesmo a escolha da bagagem fazem-nos começar a viajar muito antes de por o pé fora de casa. Eu encaro a coisa quase como um projecto de trabalho. Crio metodologia, escalas de importância e vou cortando, cortando até restar apenas o essencial. Tenho até um pequeno ritual, umas semanas antes de cada viagem espalho tudo o que acho que vou precisar no chão da garagem. Todos os dias, quando chego do trabalho gasto 5 minutos a olhar e rever a escolha. Quase todos os dias tiro algo que realmente não preciso e tomo nota de algo que me esqueci no dia anterior. Viajar com frequência trás algumas vantagens. Vamos coleccionando material e ao fim de algum tempo já temos as opções adequadas para vários tipos de destino. Mas por mais que já tenhamos muito material, há sempre uma coisinha ou outra que precisa de um upgrade. Desta vez aproveitei para renovar o meu kit de cozinha. Não parece mas este pequeno volume tem um fogão, uma panela, uma frigideira, uma botija de gás e umas saquetas de sal e pimenta que gamei no Macdonalds. Cabe numa mão! Outro upgrade que já vinha a adiar há algum tempo é o purificador de água Katadin. É certo que encontramos água engarrafada em quase todos os sítios mas sabe bem ter a opção de encher o cantil em qualquer torneira, poço ou ribeiro e bebe-la de imediato, sem receios e com toda a segurança. Um erro que todos costumamos fazer é levar uma série de coisas que podemos perfeitamente comprar no destino. Há de tudo em qualquer parte do mundo. Seja em que região for as pessoas comem, bebem, vestem-se, lavam-se... e se o fazem é porque têm como. A descoberta de como o fazem é aliás uma das formas mais simples de nos integrarmos num destino e trazer de lá experiências mais ricas. Mas a preparação não é só bagagem, a investigação dos destinos é também uma parte importante para evitar dissabores. O meu passaporte está válido para quase todo o mundo mas não para a África do Sul. Porquê? Porque já não tem duas páginas em branco, e isso seria o suficiente para não conseguir entrar no país e acabar esta viagem antes de começar.

Por mais que estejamos informados, bem equipados e preparados para uma viagem, nunca sabemos exactamente o que nos espera. Há que aceitá-lo, afinal de contas é precisamente essa incerteza, essa vulnerabilidade, essa imprevisibilidade, que nos desassossega e nos leva a partir. Eu estou pronto... acho...

quinta-feira, novembro 17, 2011

Lady... a moto.

Chama-se Lady e é uma japonesa radicada na África do Sul. Básica, simples e leve é uma clássica que desde o seu nascimento em 93 pouco ou nada mudou. Esta é de 2011, acabou de chegar ao mercado Sul Africano e sente-se perfeitamente em casa nas pistas africanas. Está a descansar em Durban depois de o seu proprietário, o meu amigo "Capeludo", ter feito a rodagem nos últimos 4 meses. Uma viagem que de certa forma provocou esta e que pode ser vista no seu blog As viagens do Nicolas que aproveito para recomendar. O equipamento segue a filosofia da moto, leve e simples qb. Uns alforges flexíveis, suportes RAM para GPS e GoPro, saco de deposito de enduro da Wolfman e um jerrican de plástico para enfrentar as distancias maiores. Para esta viagem vai levar mais uns upgrades, um deposito maior com 22 litros de capacidade, umas protecções de punho e um vidro caseiro made in Portugal. No fim de contas acaba por ser mais uma produção do atelier da Adventure Store, que mesmo a 10.000 quilómetros de distancia, consegue preparar motos para qualquer tipo de aventura... Vamos ver que tal se comporta.

quarta-feira, novembro 09, 2011

A rota

À muito que me deixei de planear exaustivamente as rotas. É bom deixar as coisas acontecerem naturalmente e não nos concentrarmos em objectivos e metas demasiadamente rígidas. Sei o ponto de partida, Durban, onde a moto está guardada, e o de chegada, Cape Town, onde ela ficará estacionada até à próxima vadiagem. Isso para já basta! Entre as duas cidades não faltam pontos de interesse e esses sim ditarão a rota final. Pontos como o Delta do Okavango, o Deserto do Kalahari ou as famosas Victoria Falls que conforme me cativem mais ou menos irão ditar o tempo que me demorarei em cada um. Mas são os pontos menos sonantes que mais suscitam a minha curiosidade. Pontos como a região da etnia Himba, o povo vermelho que habita o Norte da Namíbia, ou o Sani Pass o caminho para as montanhas do Lesotho de onde se avista quase toda a região do antigo Reino Zulu, hoje a província Sul Africana de KwaZulu-Natal. Não me vou alargar muito em termos de quilometragem, prefiro ver bem uma ou duas coisas do que passar de raspão em muitas. Não vou sequer pensar na Zâmbia, em Moçambique ou em Angola, ambos merecem uma atenção especial e estão nos planos para uma próxima. A indefinição da rota não pode ser confundida com descaso. Considero imprescindível estar bem informado e pesquisar sobre as regiões a visitar. Quanto maior o conhecimento sobre um destino, mais segura e mais autentica será a experiência que trazemos dele. Estou atento por exemplo às limitações inerentes a viajar de moto por aquelas bandas. A maior parte dos Parques Naturais e Reservas de caça proíbem terminantemente a entrada de motos. Seja pela exposição total aos animais ou pelas enormes distancias a percorrer sem abastecimentos, o facto é que a moto não é de todo uma boa escolha para fazer safaris. Mas é precisamente essa exposição total que me agrada na moto, esse chegar de igual para igual, esse olhar nos olhos, sentir, tocar e sorrir que pode não ajudar a lidar com a fauna local, mas funciona na perfeição com as pessoas.

quinta-feira, novembro 03, 2011

Noobai Africa

Existe uma frase popular no Brasil que diz; "se não tem tu, vai tu mesmo.." Eu tenho um sonho, já antigo, que se chama Noobai, "nós vamos" em crioulo. Uma ideia que consistia em descer toda a África num zig zab durante 6 meses. Uma aventura que terminaria na Namíbia, algures em cima de uma duna acompanhado por uma garrafa de Barca Velha, comemorando o meu 40º aniversário. Não vai ser possível! Primeiro porque o meu pai ainda não me ofereceu nenhuma garrafa de Barca Velha, segundo porque tirar 6 meses de licença nesta altura seria um absurdo e terceiro porque simplesmente ainda não cheguei aos 40 :) Mas vou! Não consigo seis meses de férias nem vou levar vinho na bagagem, mas já percebi que se ficamos à espera da altura ideal, ela provavelmente nunca vai chegar. Já as oportunidades nem sempre passam duas vezes... e nesta altura está por lá uma moto parada à minha disposição.... tá decidido! Em vez de 6 meses vou 20 dias, em vez de todo o continente, vou concentrar-me apenas na África Austral... e pouco a pouco, ano a ano, vou juntando férias, juntando dinheiro, e subindo, subindo por mais uns países.... Parto dia 30.

Paragem Forçada

Em vez de acordar amarrotado depois de um voo de 12 horas até ao Bornéu como tinha planeado acordei numa cama da uci do Hospital  dos Lusiad...