sexta-feira, dezembro 16, 2011

Territorio Himba.

Finalmente montanhas, desde a Africa do Sul que não via uma elevação que merecesse esse nome, agora sim, quanto mais avanço Namibia adentro mais aparecem montanhas salpicadas aqui e ali. Tinha previsto seguir pelo norte, bem junto da fronteira de Angola, delimitada pelo rio Kunene, mas uma chuva forte e nuvens negras fizeram-me mudar de ideias. Sigo para a Reserva de Etosha, a mais importante do pais, o Kruger da Namibia. Já sei que é cara, que não deixam entrar motos e que provavelmente vou gastar mais do que o habitual, mas sabem o que mais, que se lixe! Perdido por 10, perdido por mil, vou fazer o programa de turista sim, vou fazer um safari de jipe e dormir numa resort. Estava certo, os preços não são nada amigos mas a qualidade compensa. Piscina, belo jantar, cerveja geladinha tornaram o meu fim de dia bastante agradável devo confessar. De manhã cedinho parto para um game drive na enorme reserva que em mais de 22.000kms2 alberga tudo o que é bicho local. Sou o unico, só eu e um motorista magrinho com oculos fundo de garrafa. Hum se calhar isto não foi uma boa ideia... Mas foi, ví tudo o que havia para ver, apenas o leopardo não se mostrou, mas tambem já era pedir demais ver um só num dia de safari. Já pela fresquinha meto-me ao caminho, um amigo meu alentejano diz sempre que a hora mais saborosa para rodar de moto é com a luz do fim de tarde e eu concordo. A luz é mais limpa, mais contrastante e embeleza ainda mais a paisagem. Sigo pelo norte de Etosha, contornando todo o parque até perto de Opowo, a capital do território Himba. Esta etnia é famosa mundialmente pelas suas mulheres vermelhas. Conseguem essa côr graças a uma mistura de manteiga e de ervas locais que para alem de as embelezar tambem as deixa perfumadas, as mulheres Himba nunca tomam banho mas apesar disso o seu cheiro é agradável, parecido com alfazema. Encontrar Himbas era um dos objectivos desta viagem, tenho lido algo sobre eles e os seus hábitos e uma das outras caracteristicas que soube é não gostam de ser fotografados. Recorro por isso a um pequeno truque, entrego a camara a um deles e digo como funciona e deixa ver no que dá. Com a confiança ganha e com a compra de um colar lá ganhei a minha autorização para fotografar à vontade e sem exagerar fiz mais alguns retratos. A tez vermelha e os cabelos em rastas coberto pela amalgama ocre dão lhes um ar extraordináriamente exótico e bonito. O homem Himba só tem uma função, mandar, as mulheres fazem tudo o resto nesta etnia singular. Atalhei para Sul, o objectivo era chegar à boca do deserto da Namibia, onde termina a savana e começa a areia. O atalho retirou-me definitivamente das vias principais e do asfalto, daqui para a frente só gravel roads... e que gravel roads. Autenticas auto-estradas de terra onde podemos abrir a goela aos carburadores... Mas é preciso sempre muita atenção porque a qualquer momento algo pode atravessar a estrada... e quando digo qualquer coisa é qualquer coisa mesmo...esta acabou de atravessar a estrada na minha frente. No segundo susto abrandei e resolvi ser mais cauteloso, a pista tambem piorou de estado e começou a ter mais zonas de areia fofa, terreno em que a Lady finalmente provou as suas capacidades, aqui é que ela se sente bem. Cheguei exausto mas bastante satisfeito, vou dormir num chalet à sombra de um gigante monolito num hostel bem na entrada do grande deserto do Namib. Sabem um dia perfeito? Daqueles em que corre tudo bem? Foi hoje! Inté!

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Zambezi: África pura, sem diamantes sff

Imaginem um enorme planalto que se estende por muitas centenas de quilómetros. Agora imaginem que uma faca gigantesca faz um golpe em ziguezag com mais de uma centena de metros de profundidade. Esperem, ainda não acabou, juntem um rio que corria tranquilo e espaçado na planicie e que caí agora abruptamente ao longo de quase dois quilómetros nessa fenda. É dificil imaginar não é? Pode ser que umas fotos ajudem. Não é à toa que esta é universalmente considerada a cascata mais majestosa de todo o planeta, uma das sete maravilhas naturais e patrimonio da humanidade pela Unesco. Muitos galardões que mesmo assim não fazem juz à sensação de a sentir de perto. De perto de longe, de um lado e do outro, todos os pontos de vista deixam-nos de queixo caído. Passei a manhã a vê-la do lado do Zimbabwe, de frente para as quedas de agua, depois passei para o lado da Zambia onde o rio largo forma ilhas e piscinas naturais bem na beira do abismo, e por fim vi-a do ar a bordo de um ultraleve que alem das cascatas nos presentei com toda a beleza do rio Zambezi. Nota-se bem que a Zambia e o Zimbabwe não têm diamantes, não apenas nos serviços aduaneirosmas principalmente nas infraestruturas dos 2 países. Estradas degradadas, edificios a precisar de reforma e um ambiente que nos transporta para a verdadeira África pura. Entrar nestes dois países saí caro, são 25USD de visto mais 50 de importação temporaria da moto para o Zimbabwe e na Zambia 50USD de visto a que temos de juntar 20USD de importação temporaria e mais 10USD de uma taxa engraçadaa que chamam Taxa de emissões de carbono. Doeu, é claro que doeu, mas sabem que mais é bem feito! Todo o povo africano é descriminado quando quer entrar na Europa, porque não podem eles fazer o mesmo com os Europeus? O mais engraçado é que no primeiro guiché só podemos pagar com moeda local, hora como é obvio quando entramos num país não temos moeda local por isso há que trocar num cambio inventado pelos “colegas” no exterior. Depois no segundo Guiché só USD... mas acabei de trocar todos os USD que tinha por moeda local... just USD, sorry! Vai trocar de novo, euros por dolares. No terceiro aceitam só moeda local de novo e como já não chega lá se vai outra vez ao “colega” trocar mais uns euros... Um processo criativo de sacar mais uns cobres aos turistas, e o mais brilhante de tudo, totalmente regular. Decididamente onde me sinto melhor em viagem é fora das cidades, foi só sair de Livingstone que relaxei novamente, nas cidades parece que fico tenso, atento, alerta para evitar qualquer terreno em falso. No meio do campo paro sem receios nas aldeias, sou bem recebido, sinto-me totalmente tranquilo. A estrada que me leva pela margem do Zambezi por mais de 200kms está forrada de aldeias tradicionais e mata intocada, linda! Chego à Namibia e tudo muda, não em termos de paisagem ou de pessoas mas na organização da fronteira. Ar condicionado, instalações impecáveis e um processo rápido e simples. Entro na Caprivi Strip uma faixa de Namibia com 500kms de cumprimento e pouco mais de 20 de largura, entalada entre Angola a Norte e Botswana a Sul. Esta é uma região onde até à bem pouco tempo só se podia circular escoltado num comboio de veiculos militares. Hoje, terminada a guerra civil em Angola é uma sucessão de reservas naturais onde já se nota bem a influencia tropical. A savana dá lugar à floresta a humidade aumenta e não demora muito até reencontrar o rio Okavango. Confesso que a paisagem acaba por ser monótona, desde a Africa do Sul que não vejo uma montanha, uma elevação. As distancias são tão grandes e as retas tão longas que até os elefantes e zebras que de vez enquando atravessam a estrada já se tornaram banais. A falta de pontos elevados não nos dá perspectiva para ver alem da primeira franja de arvores e arbustos e tudo isso acaba por retirar a dimensão do que nos envolve. De vez em quando paro! Paro só por parar, para descansar o rabo e fumar um cigarro, deito-me no chão e reduzo a velocidade interna. A monotonia acaba por nos empurrar a andar mais rapido para rodar mais depressa e ver mais, mais. Tenho a necessidade de contrariar isso, por isso paro, aprecio a pasiagem e acabo por ter mais atenção a pormenores que passariam despercebidos se não tivesse parado. "Pormenores" com esta amiga que me observava atenta... Reencontro o Okavango num hostal idilico. Um local com uma vibração fantastica e uma localização melhor ainda, bem de frente para uma piscina de hipotamos. A piscina dos hospedes é uma jangada forrada a grades de ferro que impedem os hipopotamos e os crocodilos de se juntarem a nós para umas braçadas. Não sei se é por já estar meio preto ou se é por curiosade por causa da moto, mas onde quer que chegue os empregados adoptam-me sempre. Aqui não é excepção, sou forrado de mimos pelas cozinheiras e pelos empregados do bar, comi que nem um abade e bebi que nem um frade, mas desta vez respeitei a lua alta, 9 horas e já estava na caminha.

domingo, dezembro 11, 2011

Dr Livingstone, I presume!

Estas foram as primeiras palavras de Stanley, um jornalista do New York Herald que durante dois anos procurou por toda a Africa o famoso explorador Britanico. Livingstone ganhou fama por em 1855 ter sido o primeiro europeu a “descobrir” as Cataratas Victoria durante uma viagem epica no rio Zambezi. É para o rio Zambezi que aponto, mas para chegar lá há muitos quilómetros ainda pela frente. O Kalahari ainda marca a sua presença, até perto da fronteira do Zimbabwe existe o maior lago salgado do mundo. Eu tambem pensava que era o Uyuni na Bolívia mas pelos vistos não, é aqui nos enormes Pans Nwetwe que está a maior área salgada do planeta. Num degradé que vai progressivamente de branco para verde, começo a ver cada vez mais arvores grandes, mais vegetação. Os Baobads, raros até aqui, multiplicam-se ao redor da estrada e atingem dimensões impressionantes. Este tem 2000 anos e um tronco com mais de 27 metros de largura. Descanso no Planet Baobad, um ponto de apoio/camp/hotel/bar unico num raio de centenas de quilómetros. Um verdadeiro oázis construido num jardim natural de Baobads milenares. Se a MotoXplorers vier para estes lado vamos ficar aqui sem duvida! Digo adeus de vez ao Kalahari em Nata, já perto da fronteira onde finalmente me rendo ao restaurante Barcelos que vejo em todas as cidades desde que entrei no Botswana. Barcelos é o MacDonalds Português, uma rede de fast food onde o frango grelhado é rei e senhor. Até o logotipo é o nosso conhecido galo de Barcelos... há por aqui um português que está a fazer um grande sucesso! Aponto para Norte, sigo por uma estrada conhecida por ser pouco respeitada pelos animais selvagens. Livres leves e soltos, deambulam entre a fronteira do Zimbabwe e a Reserva de Chobe no Botswana cruzando a estrada habitualmente. Varro as bermas da estrada à procura deles e não demoro muito a encontrar o primeiro, um grande elefante macho que sem pressas de afasta para o mato graças ao escape de rendimento do Nicogolias (Grrrrr) Sigo-o a pé, encontro-o tranquilo a pastar a uns 20 metros da beira da estrada. Esqueço instataneamente tudo o que o guia San me tinha ensinado no Okavango e pouco a pouco avanço convencido que as arvores me escondem, chego a 5 metros de distancia. De repente ele olha directo para mim, abre as orelhas levanta a tromba e manda um bafo ruidoso que sem hesitações me pôs a correr os 100 metros barreiras mais rapido que uma chita. Só quando chego à estrada é que olho para trás e nem sinal do paquiderme... tambem se deve ter assustado com um gaijo de capacete no meio do mato. Tenho o coração aos pulos e durante pelo menos uma hora berro de satisfação dentro do capacete perante a grande estupidez que acabei de fazer. É daquelas parvoices que se correm bem dão um prazer e uma excitação intensa e inesquecivel, mas se correm mal.... provavelmente neste caso dariam papa de português. A minha pequena maquina fotográfica tem um zoom minimo, é optima para paisagens mas péssima para vida selvagem. Não foi uma foto próxima que me levou a aproximar do elefante, foi a sensação de o ver de perto, sozinho, a pé, de igual para igual. Acelerado por este encontro “arranco fogo” da Lady até Kasane onde uma tabuleta me deixa indeciso. Zambia ou Zimbabwe? Decido pela Zambia mas segundo a senhora da fronteira o ultimo ferry já saiu e agora só amanha. Para a Zimbabwe há ponte e posso chegar às cascatas ainda hoje. Avanço rapidamente para a fronteira convencido que ainda poderia chegar a Victoria Falls durante o dia. Esqueci-me no entanto que o Zimbabwe saiu à pouco tempo de um periodo conturbano sobre a direcção do Sr. Mugabe e que por lá não há diamantes para financiar o serviço publico. Passo 2 horas na fronteira e saio já de noite por uma estrada deserta durante 80kms até à cidade de Victoria Falls. Milhares de mosquitos, dezenas de bezouros, e 3 passaros depois chego ao final da batalha, ainda bem que não passou nada maior à minha frente. Hoje vou dormir na cidade aqui, amanhã passo para o outro lado do rio para a cidade do Dr Livingstone.

quinta-feira, dezembro 08, 2011

Okavango, o rio que desagua no deserto.

Sem o Delta do Okabango provávelmente o Botswana seria como a Argelia ou Mauritania, um enorme deserto com mares de dunas a cobrir a maioria do seu territorio. Em vez disso é um pais maioritariamente verde, mesmo no seu deserto. Existe como que um equilibrio que enche anulamente as poças de àgua do Kalahari e permitem a sobrevivencia de tanta diversidade. Mas no Delta própriamente dito não existe apenas diversidade, existe uma explosão de vida que se entende por milhares de ilhas. Para chegar a muitas delas só de Mokoro, a tradicional canoa da região que desde tempos antigos é o meio de transporte dos bushman que habitam o Delta. O meu karma deu mais vez ajuda e na manha seguinte consigo lugar num safari de mokoro de 2 dias e uma noite no meio do Delta. Partilho a experiencia com Karl um alemão que vive no Botswana há um ano e Nicolas, um Belga que vem à procura de emprego como bush pilot numa das empresas de aviação locais. Bons rapazes os dois. Começamos com uma subida do Delta em lancha motorizada que nos deixa numa aldeia San algures no Delta. Aí trocamos para 2 mokoro guiadas eximiamente por dois orgulhoso bushmans nascidos e criados no delta. Lentamente percorremos canais labirinticos por entre water lillys, nenufares que com as sua flores indicam o caminho para uma das ilhas do delta. É aqui que vamos passar a noite precisamente na ilha onde somos recebidos por um enorme elefante solitário. Afastamos o estrume de elefante que forra o local do acampamento, é boa lenha para a fogueira diz o guia, montamos as tendas e partimos para um safari a pé. A poucos minutos de caminhada outro elefante, desta vez com uma cria, logo depois um rinoceronte que pasta fora de agua a escassos 15 metros de nós. O guia faz um briefing sobre as regras de sobrevivência, se virem um leão fiquem quietos, ele não ataca, se virem um búfalo só corram para a primeira árvore que encontrarem, se for um elefante e bufar não adianta fugir, fiquem quietos e rezem... Voltamos, esfomeados e cansados, o guia diz que há uma piscinha natural onde podemos nos refrescar. Confiamos no seu prognostico que diz que os enormes crocodilos só vem para esta zona à noite, nisso e nos seus olhos experiente que do alto da sua mokoro miram as aguas à volta. Afinal de contas não é todos os dias que podemos mergulhar no Okavango. Regressamos para o acampamento, reunimos a comida de todos e o Karl, presenteia-nos com uma pasta de legumes salteados. Afinal o Alemão tambem é chef nas horas vagas, e ali do meio de uma salganhada de coisas fez uma refeição magnifica iluminada por um por do sol daqueles que vão ficar gravados na memoria. A noite aqui chega rápido e depois de uma conversa com os bushman sobre as tradições e crenças dos San seguimos uma delas e vamos para as tendas. Segundo os San devemos ir dormir quando a lua fica a pique, no ponto mais alto. Quando ela desce até ao horizonte o sol chega do outro lado e é tempo de acordar e aproveitar o fresco antes do meio dia. A noite foi encantada pelos sons do Delta, não recebemos nenhuma visita noctura apesar de termos montado acampamento precisamente por baixo de umas arvores que produzem uns frutos muito apreciados pelos nossos amigos elefantes. Acordámos às 5 da manha, entramos na mokoro e uma hora depois estávamos em outra ilha para mais uma caminhada. 5 horas a caminhar por savanas, florestas e pantanos até um magestoso baobab com mais de 20 metros de diametro. O nosso guia ia identificando as pegadas e as bostas pelo caminho, esta é fresca dizia ele, é de bufalo e onde há bufalos à leões. Pois, de certeza que há mas não se deixam ver, vimos zebras, várias especies de antilopes, mais rinocerontes, elefantes e até um chacal mas nada de leões. Andar a pé no meio do habitat destes animais é qualquer coisa de indescritível, é puro, estamos de igual para igual e tudo é mais intenso, até o sol impiedoso que nos obriga a nós e aos animais a parar durante o pino do sol. Voltamos para o hostel na beira do Orinoco, degusto o famoso hamburguer local e uma cerveja gelada. Perco-me à conversa com um casal suiço que viaja num Land rover e um casal espanhol que há um ano saiu de Vigo e anda a descer Africa de moto. Até aqui sou assombrado por galegos :) por causa deles não respeitei a regra dos San e perdi a lua alta. Por causa deles amanha vai ser mais duro enfrentar os lagos salgados de Nata no pino do calor...

Paragem Forçada

Em vez de acordar amarrotado depois de um voo de 12 horas até ao Bornéu como tinha planeado acordei numa cama da uci do Hospital  dos Lusiad...