sábado, junho 30, 2007

Sem Palavras...

Lembram-se da descriçao do ano passado do El Chaiten? Pois multipliquem por 50, sao inumeros calhaus com 2000 metros de altitude, aqui em vez de terem a pedra nua estao forrados por floresta tropical, entre eles têm canyons profundos onde serpenteia um rio revolto sobre pedras enormes cor de rosa. Alguns desses calhaus têm paredes absolutamente verticas com centenas de metros, os seus picos furam as nuvens e como se nao fosse suficiente todo este cenário ainda existe Machu Picchu. Nao dá para descrever a sensaçao de estar aqui, sem duvida o lugar emana uma energia forte e todos nós a sentimos. Optámos por vir de comboio de Cusco, por incrivel que pareça sai mais barato do que de Olaytaitambo, aliás os preços por aqui sao abusivos; 73 USD para uma passagem de comboio, 12 USD para subir de autocarro, 45 USD para poder entrar, 50 centavos para ir ao banheiro... estes dolares todos davam para agente dormir, comer e meter gasolina durante uma semana!!! Em vez de contratar um guia dê-mos uma de penetras nos grupos com visitas guiadas e deu para perceber todas as explicaçoes importantes da cidade. Hoje saimos de Cusco e subimos ao AntiPlano Andino, estamos agora nas margens do lago Titicaca na cidade de Puno. Amanha vamos visitar logo cedo as ilhas flutuantes de Uros e depois seguir para La Paz, dependendo da hora de chegada subiremos a estrada da muerte para Corioco onde temos planos de passar a noite. Assim que cai a noite a temperatuta desce a 5 abaixo de zero... já estamos a sonhar outra vez com o calor tropical.

quinta-feira, junho 28, 2007

Umbigo do mundo

Segundo os Incas, Cusco é o umbigo do mundo. Para nós acabados de chegar "da selva" é uma cidade turistica, demasiado turistica, especialmente nos preços, mas se nos conseguirmos abster disso, é uma cidade agradavel e bonita. Chegámos ontem depois de mais 2 dias muito duros, a pista de Puerto Maldonado até Urcos está em obras, estao a construir a tal estrada do Pacifico e a pista antiga foi destruida pela construçao da nova. Dois pontos desta pista ficam mesmo cortados ao transito durante o dia, quem quiser passar terá de esperar pelas 6 da tarde para iniciar a sua viagem. Foi o que fomos obrigados a fazer, almoçamos tranquilos em Puerto Maldonado e arrancámos depois de almoço de forma a chegar ao ponto onde a pista estaria interrompida âs 18h, altura em que poderiamos passar. A tarde correu bem, a pista continua bonita e deliciosa, quase perfeita ao som de Ali FarkaToure, no entanto achei que seria boa ideia desligar o Ipod e passar a estar mais atento aos onibus que gostam de apontar â minha moto, acho que devia ter pintado a Floribela de camuflado. Chegámos ao ponto da pista interrompida pouco depois das 6, a unica baixa era um farol partido por uma pedrada dos meus amigos "pilotos" de onibus, jantámos o habitual "pollo" e avançamos pela noite dentro. Sabiamos que seria dificil subir de noite, que chuveu um pouco durante o dia, mas nada nos fazia imaginar as condiçoes desta pista. Desisti de contar os rios que atravessámos, alguns deles com uma corrente forte e todos com pedras redondas cheias de musgo, o transito continuo dos camióes das obras deixam atoleiros piores que os da trans-amasonica, as viseiras deixam de ser uteis naquela lama, está nevoeiro e os camionistas devem ter apostado entre eles qual mataria uma moto naquele dia. Acabámos por chegar ao nosso objectivo do dia, Quicemil,uma pequena aldeia mineira na base dos Andes. Os quilometros nao sao indicadores da distancia por aqui, as horas de viagem sim, 70 quilometros podem significar nuns locais 2 horas de viagem e noutros 4 horas. Em Quincemil encontrámos uma pequena hosteria que nos acolheu a todos (motos e condutores) dentro do mesmo quarto, estamos exaustos,a agua do duche é fria e com esta temperatura já nao apetece banho frio...fica para amanha.. O dia seguinte começou cedo, começamos a verdadeira subida, continuamos na floresta, acompanhamos um vale aberto por um rio cristalino, de um lado e do outro do vale jorram quedas de agua, a estrada está vazia, somos os unicos por aqui. A cada subida, a cada montanha a vegetaçao fica menos densa, mais baixa e menos verde,ganha tons de castanho,vermelho e quando percebemos estamos a 3000 metros de altitude. Paramos para tomar um chá de coca e iniciar a terapia das alturas mastigando mais do mesmo. O sabor nao é muito agradável mas aquilo funciona,pelomenos como diorético...tinhamos de parar de 5 em 5 quilomeros. Quanto mais avançamos mais camioes em sentido contrario apanhamos, a negociaçao nunca é facil mas entre o precipicio e ir em contramao nao temos duvidas, encostamos o maximo ao paredao da esquerda. Um deles empurrou-me para a valeta, fiquei naquela posiçao onde seguro a moto para nao cair mas nao a consigo levantar, mative o equilibrio um minuto mas nao aguentei mais e deitei-a suavemente conta o paredao. Tentei levantar a moto uma vez, nao consegui, tentei uma segunda vez... e vi tudo a rodar à minha volta,incluindo o André que tinha parado para me ajudar. Estamos a 4800mts e nesta altitude qualquer esforço nos deixa exautos, eu e o André depois desta manobra parecia que tinhamos levantado uma Goldwind. Passamos o ponto mais alto e começamos a descida, isto agora é facil, pensamos nós... Começamos a ver as primeiras Alpacas, os primeiros picos gelados, passamos algumas aldeias isoladas e aproveitamos para reforçar a roupa. Chegamos ao segundo ponto onde a pista fica cortada durante o dia, ainda sao 4 da tarde mas os policias deixam-nos passar depois de nos avisarem das maquinas a trabalhar mais abaixo. Encontramos as maquinas numa pequena aldeia transformada em estaleiro, maquinas furam, transportam e escavam terra por todos os lados, todo menos um, o campo de futebol da aldeia está em verdadeira festa com um torneio de futebol feminino,as meninas estao com roupas tipicas (saias rodadas e chapeu colorido) e é assim mesmo que jogam. Encontramos alguns pedaços de alcatrao mas sao pequenas amostras do que vai ser esta estrada, voltamos ao inferno das obras, à lama dos camioes, ao transito caotico de maquinas de obras. Este inferno dura até ao por do sol, a temperatura desce brutalmente, deixamos de ver a lama e só vemos fumo diesel e poeira, perdemos-nos uns dos outros na confusao de caminhos e maquinas a trabalhar. Paro para ver se encontro os outros e sou presenteado com os ultimos raios de sol do dia, tiro a ultima foto, arrumo a maquina visto mais roupa, está um vento gelado vou procurar um lugar mais abrigado para espera por eles. Estava eu a pensar isto e aparece o André, o Cesar e o Casimiro de outro lado....parece que há varias alternativas para subir a ultima montanha antes de descer para Cusco. O GPS indica 12 kms em linha reta para Cusco, em vez disso descemos 60 kms por uma pista fugindo a cada curva de mais um camiao. A descida foi interminável, Cusco aparece ao fundo como se fosse um monte de brasas numa noite escura, parece que estamos num aviao a olhar para as luses de uma cidade muito lá em baixo... E continua...continua....e continua... lembro-me de o Douglas ter dito que desde que começamos a ver Cusco demoramos umas 3 ou 4 horas até chegar. Parei na entrada da estrada asfaltada à espera dos outros, chegam todos menos o Teles, o Policia que está no local disse que já passou uma moto azul,seguimos até à proxima cidade. Nada de Teles, jantámos e continuamos à espera, resolvemos dormir por ali e esperar noticias dele. Dormimos no andar de cima do restaurante e as motos dormiram na sala do proprio restaurante, o Teles finalmente deu noticias, estava gelado e só parou em Cusco, optimo, assim domimos todos mais tranquilos. Hoje viemos ao encontro do Teles e passámos o dia em Cusco, as motos tiveram direito a uma revisao, a Floribela levou rolamentos todos novos, as Teneres foram soldadas e levaram pastilhas de travoes recicladas, foram mimadas pelo Richard, o mecanico de confiança do Alex Luna,um amigo que o Douglas nos recomendou. Entretanto tb recebi uma mensagem do Silvio Ventura dizendo que já tinha as caixas para o reenvio das motos para Portugal, realmente quem tem amigos tem tudo!!! Obrigado pessoal!! Amanha cedinho vamos para Machu Picchu e vamos passar todo o dia lá, depois conto como foi...

segunda-feira, junho 25, 2007

Vem aí tempestade!!!

Continuamos em Puerto Maldonado, estamos a ser ameaçados por umas nuvens carregadas no horizonte e a preparar tudo para a subida. A chuva até é bem vinda, assenta o pó e refresca o ar o problema é que se voltamos a encontrar isto só chegamos a Cusco daqui a uma semana! Ontem esqueci de referir que o Adolfo separou-se do grupo tal como já estava previsto. Ele tinha pressa em chegar na Bolivia e por isso seguiu directo para La Paz, boa viagem amigo vai com segurança!! Agora estamos a verificar as motos, os suportes de malas das Tenerés estáo todos partidos mas já foram soldados, (os do Nunotech estao perfeitos) os problemas de carburaçao acabaram quando começamos a utilizar a gasolina Peruana e descobrimos agora que os rolamentos nao estao em muito bom estado. Ontem apanhamos muita chapa ondulada na pista, com a lama da transamazonica e as motos tao carregadas é de esperar que os rolamentos nao aguentem. Queria agradecer a todos os comentários, é algo que nos deixa muito satisfeitos, vemos todos em grupo quando chegamos a um cyber para actualizar o Blog, nao é possivel agradecer a todos via email de forma que fica aqui o nosso obrigado!

Comendo o Peru!

Pois... hoje foi um dia em que comemos literalmente o Peru (Peru o país, em português de Portugal, nada de confusoes que aqui náo tem gaúcho, che!) Comemos muito pó e terra nos magnificos 200 kms entre a fronteira de Assis Brasil e Puerto Maldonado. Continuamos na selva, aliás â 3000 kms que só vemos selva. Ao contrário do que nos tinham dito a estrada entre a fronteira e Cusco ainda nao está (felismente :) asfaltada, em vez disso temos uma magnifica pista de terra vermelha com mais de 200 kms que serpenteia por partes de floresta virgem e por aldeias pitorescas. Tenho de confessar que aconteceram alguns excessos, a pista é muito tentadora e mistura terra dura com uma espécie de fesh-fesh e com ripio fino, o resultado é que a roda trazeira vai sempre a fugir e depois um tipo náo aguenta e passa a vida a rodar punho... uma delicia. Bom mas vamos ao ultimos dias, saimos tarde de Porto Velho, com a pressa nao deixei secar completamente o epoxy que assim náo conseguiu parar a fuga. O Polaco e o Douglas aconselharam uma cola especial que resultava de certesa, uma tal de massa de 2 componentes para próteses dentárias, indicaram onde eu podia comprar e em meia hora a Floribela já o seu sorriso reparado... maravilha!! Seguimos na direçao de Brasileia onde pensavamos dormir, o calor é muito e a vegetaçao agora é mais seca, existem por aqui muitas fazendas gigantescas e clareiras enormes "roubadas" â Mata à muito pouco tempo, os rios e pantanos sao mais escassos e a estrada é uma sequencia de retas esburacadas e monótonas. Com todas estas condicionantes achámos bem parar para uma sesta numa praia fluvial, deixar passar o calor e continuar viagem mais tarde... para todos os efeitos estamos de férias náo é... Foi boa ideia na altura mas a noite aqui caí muito rápido e quando percebemos estávamos a dirigir de noite escura numa estrada esburacada com vários bichos a atravessar e ainda a 200kms de Brasileia... acábámos por dormir numa pequena cidade chamada Vista Alegre. No dia seguinte, frescos, devorámos os 200kms que faltavam rápidamente mas a fronteira reservava-nos uma má surpresa. Os tramites alfandegários sáo feitos em Brasileia na fronteira com a Bolivia pois em Assis Brasil ( fronteira com o Peru 110kms para Noroeste) náo existe posto alfandegário. O tipo da Alfandega embirrou que se fizessemos a saida alfandegária da moto ali tinhamos de sair logo para a Bolivia e náo seriamos autorizados a circular até ao Peru por estradas Brasileiras. Insistimos e insistimos, mas o tipo é daqueles teimosos e embirrentos, que se dane voltamos amanha!! E voltámos, carimbamos tudo e seguimos como previsto para o Peru sem probelmas absolutamente nenhuns. Atravessando a fronteira sente-se realmente uma grande diferença, as mini saias acabaram, a estrada de asfalto tambem, as cidades sao minusculas comparadas com as do Brasil e a cerveja nao é tao fresca. Tb aqui o tempo corre mais devagar, pelo menos é o que acha o responsável da emigraçao que nos fez esperar uma hora e meia pela sua dignissima presença, depois ainda há que ir à policia do outro lado do quarteirao carimbar o visto e ir ao outro lado da cidade dar saida das motos na aduana....aahhhhh e fotocopias de tudo.... Animámos desta espera na pista que nos trouxe a Puerto Maldonado, dá para perceber que esta vai ser uma rota futura importante, a Estrada do Pacifico, mais uns meses e deve estar tudo asfaltado. Agora estamos aqui nesta pitoresca cidade de selva, já jantámos uma paelha de carne e estamos a preparar o dia de amanha, parece que estao a dinamitar partes da pista da Cordilheira para construir a futura estrada e só se consegue passar durante a noite. Isso quer dizer que para chegar a Cusco, a escassos 450 kms daqui, temos de conduzir de madrugada, por pista, com transito, a mais de 4800 metros de altitude e acabámos de saber que está a nevar por lá.... a boa noticia é que pelo menos vamos ficar mais frescos!!

quinta-feira, junho 21, 2007

Sobrevivemos!!!

Foi duro, foi muito duro mas estamos são e salvos depois da 3 dias demolidores para as motos. Chegámos ontem a Humaitá depois de 670 kms atravessando a amazonia pelo meio de atoleiros muito dificeis, pantanos, areias movediças e onças à espreita. Há quem diga que Deus proteje os audazes, nós gostamos de acreditar na nossa sorte de "Inshalah", o certo é que nós somos realmente abençoados com momentos maravilhosos. Estes ultimos 4 dias provaram isso mesmo. Na balsa que cruza o Rio Negro, atravessa o Amazonas e entra no Rio Solimões conhecemos o Osmar, ele nos alertou para os perigos do asfalto esburacado até à proxima balsa em Castanho onde pertendiamos dormir nessa noite. Se ofereceu para nos guiar pois caí uma neblina forte na floresta alagada desta região e de noite fica muito perigoso. Aceitamos a sua generozidade e seguimos ele até 30 kms antes de Castanho, aí fica sua fazenda e ele prontamente nos convidou para pernoitar lá. A noite foi magnifica, dormimos em redes e em tendas no alpendre da fazenda depois de um duche ao ar livre directamente da caixa de agua e de um frango á passarinha delicioso feito pelo Jeová, o irmão de Osmar. No dia seguinte depois de uma caminhada ao nascer do sol, Osmar no levou a Castanho, abastecemos cerca de 45 litros de combustivel por moto, agua e comida e dissemos adeus à civilização. Os 2 dias que se seguiram foram duros, começamos com pista boa e rolante mas logo apareceram os lameiros ou como chamam aqui os atoleiros. O barro aqui é muito fino e cola de uma forma incrivel, 500 metros depois do primeiro foi feita a primeira paragem técnica para desmontar os para lamas dianteiros das Tenerés. A lama e as enormes crateras são muito duras para a transmissão, a minha saltou duas vezes e foi necessário esticar um pouco todas no fim do dia. Como já disse a nossa sorte "Inshaláh" presenteou-nos com uma pousada maravilhosa do lado de um rio dourado com o por do sol. Vimos uns meninos dando uns mergulhos nas margens do rio e resolvemos dar umas braçadas rio adentro (inconscientes.... mais tarde soubemos que todo o rio aqui tem anaconda, jacaré, piranha e mais um sem fim de bichos assim...) Mais uma vez montámos a rede e dormimos num telheiro com uma vista inesquecivel, no rio um boto (golfinho de "agua doce") veio fazer a sua visita diária à aldeia e procurar os peixes que as crianças lhes oferecem sempre à mesma hora. Acordámos com o nascer do sol como já é nosso hábito, comemos umas frutas, um café e segue viagem. Aqui começamos a atravessar a região mais isolada do percurso, atravessámos mais de 400 kms sem ver um unica pessoa, um sitio, uma fazenda, nada... a unica coisa que se vê é floresta, mata, pantanos e rios, mesmo a vida selvagem é dificil de ver, sabemos que está lá, dá para ouvir e sentir o mexer das folhagens mas não se vê nada para dentro da floresta densa. Desde que entrámos no Brasil que nos falam que somos doidos de fazer esta estrada, dizem que tem muita onça (felino tipo jaguar) e que ataques a humanos não são raros por aqui, quem vai de carro ainda está protegido mas de moto estamos muito expostos. Resolvemos esse problema com a compra de algumas catanas "para defesa pessoal" e muito espirito Inshalah, quando tinha uma paragem um ficava sempre de guarda... ainda vimos um dorso negro mexendo no mato... e uns olhos amarelhos... mas não deu para perceber o que era... A pista é muito dura, existem crateras enormes, estamos no inicio da epoca seca mas ainda tem muita lama na pista, nos poucos pedaços de asfalto que resistem aos 30 anos de abandono encontramos degraus com 20 cms com ponta afiada e tudo isto é muito destruidor para as motos. Não conseguimos um ritmo que ajude a arrefecer os motores, não conseguimos passar de 2ª ou 3ª, as motos enterram tanto na lama que as malas batem no chão, mais uma corrente que sai, uma mala que caí, uma moto que engasga numa poça, enfim... não conseguimos adiantar muito e sem aldeias nos proximos 300kms só nos restou procurar o refugio do interior da vedação de uma das antenas da Embratel, nessa noite o zoológico era invertido, nós que estavamos no interior da vedação e a bicharada do lado de fora... em compensação um céu que não deixa muito a dever ao das noites no Sahara. A noite começou por ser complicada, a agua estava a terminar, a comida era pouca e o cansaço era muito, encontrámos um poço e reabastecemos as forças, filtramos, tratámos e fervemos a agua. Como entrada uma sopa de carne, depois como segundo prato um atum com tomate, um chá delicioso para acompanhar e para digestivo uma cachaça.... uma noite no meio da selva até que não é tão dificil assim!!! Ontem com energia reforçada e com a vontade de encontrar uma cerveja gelada devorámos 300 kms de pista e pouco mais de meio dia, os buracos aumentaram os lameiros tb, mas não sei como achamos tudo bem mais facil ontem e às 2 da tarde já tinhamos a merecida cerveja na primeira aldeia depois de 425 kms de selva. Na entrada uma placa anuncia "Bem vindos a REALIDADE", não consigo imaginar um nome mais adequado para uma aldeia no fim da Trans - Amazonica. Agora estamos em Porto Velho a reconstruir as motos, já fizemos algumas reparações em Humaitá onde passamos a noite de ontem, mas o deposito da Floribela está com uma fuga e é necessário soldar algumas peças nas restantes motos, o Douglas da FOXMOTOS está nos dando uma ajuda preciosa e já nos deu contactos de mais amigos em Rio Branco e Peru, é para lá que vamos daqui a pouco. Podem ver mais algumas fotos recentes aqui: http://ateaofimdomundo.smugmug.com/gallery/3006282#163148440

sábado, junho 16, 2007

BR 319 - TransAmazonica

Daqui a alguns minutos vamos sair de Manaus, vamos atravessar a junção das águas do Rio Negro e do Rio Solimões e entrar no Rio Amazonas. Do outro lado do Rio espera-nos uma das mais dificeis estradas do Brasil, uma estrada abandonada desde 1977 e reclamada de volta pela floresta. Nos últimos dias temos recolhido informações sobre autonomia necessária e estado da estrada, resolvemos arriscar, de barco são 4 dias subindo o Rio e nós gostamos é de andar de moto. A net aqui é muito lenta e não conseguimos carregar fotos, é pena, as paisagens são magnificas e temos algumas imagens boas, vão ter de esperar até encontrarmos net a boa velocidade. O Gau, o Harles e o Sousa receberam-nos em Manaus como Reis, ontem tivemos direito a um concerto no famoso Teatro Amazonas seguido por uma degustação dos peixes mais saborosos destas águas. A noite acabou tarde de novo, mas hoje acordámos decididos a iniciar a travessia para Porto Velho. Temos pena de não encontrar o Cícero, ele chega hoje de noite, mas ainda temos muitos kms pela frente e não podemos ficar mais tempo em Manaus. Esta cidade vai ficar na memória, a sua energia é enorme, os amigos que conhecemos vão engrossar a nossa já vasta família brasileira mas a vontade de não sair daqui foi superada pela necessidade de avançar na viagem... o tempo, sempre a falta de tempo... Não sabemos ao certo quantos dias vamos demorar, são 1100 kms de estrada de terra, lama, florestas e centenas de rios para atravessar, com ou sem pontes, depois se vê... inshalá. Vamos necessitar de 680kms de autonomia, água potável, comida e muiiiito repelente. Contamos voltar a dar noticias de Porto Velho lá para dia 21 ou 22... até lá!

sexta-feira, junho 15, 2007

Manaus, 35 graus!

O calor é muito mas nós já estamos adaptados, chegámos ontem ao meio da tarde à capital da Amazonia. Assim que chegámos ao centro ligámos ao Harles e ao Gao e depois de uma busca pelo centro encontrámos um hotel à nossa medida, barato e com garagem, o Hotel Juliana! A noite já caiu e o calor continua mas agora acompanhado de mosquitos, fugimos para um barzinho animado e procurámos o nosso refresco favorito, Skol estupidamente gelada, o Gao e o Harles vieram ao nosso encontro e ficamos conversando noite dentro. Mais uma recepçao que vai ficar na memoria, já se pensa mesmo em abrir uma sucursal do Brasil Riders em Portugal, o Cicero deve chegar a Manaus hoje ou amanhã e nós gostariamos muito de tomar uma cerveja com ele antes de seguir viagem. Esta coisa das viagens de moto é mesmo um mundo pequeno, encontrámos um Italiano que está rodando à 11 meses pela America, como é normal nestas ocasioes trocámos informações e percebemos que os nosso contactos eram os mesmos, tanto na Venezuela como no Brazil, todos conheciamos todos, parece uma familia gigante e muito solidaria. Ontem o dia acordou novamente com chuva forte, vestimos os impermeáveis e avançamos para Sul. A poucos quilometros do Equador a chuva parou mas o ceu continuava muito carregado. Na linha do equador existe ao lado da estrada "A praça do centro do Mundo" onde um monumento marca a linha que divide o planeta em dois hemisférios. Para nós mais importante do que trocar de hemisfério é entrar no verão tropical, teoricamente a epoca ideal para viajar por estas bandas. Tirámos as fotos da praxe, saboreámos mais um objectivo alcançado, e seguimos até à Reserva Indigena de Waimiri Atroari. A reserva tem regras muito rigidas, durante a travessia de 130 kms não se pode parar, tirar fotos, filmar e o indio que nos recebeu na entrada não tinha cara muito amistosa. A reserva é uma belesa, um pedáço de Amazonia imaculado, sem zonas destruidas nem construções, pelas margens da estrada podem se ver alguns indios ainda vestidos tradicionalmente e utilizando ferramentas originais. Cada dia vemos mais vida selvagem, principalmente aves exoticas e pequenos mamiferos. A estrada é muito esburacada, a gincana permanente ajuda a manter a concentração nas enormes retas que atravessam as colinas da floresta, em algumas zonas não existe mesmo asfalto, é nestas altura que acho que escolhemos bem as motos. Agora que já estamos calejados :) os bancos são tão confortáveis como os das BMW, são leves e absorvem os buracos com facilidade. Estão todas a portarem-se bem, até agora nenhuma avaria a registar, apenas o esperado consumo de oleo das Yamahas e alguns parafusos que desistem da viagem. O kit de parafusos que o Artur nos deu já serviu 3 vezes, obrigado Artur mais uma vez. Com 2500 quilometros completamos o primeiro quarto da viagem, vamos tirar um dia de folga das motos e visitar Manaus e as redondesas. O Gao e o Harles devem aparecer mais logo, parece que hoje tem churrasquinho...

quinta-feira, junho 14, 2007

Xevere Venezuela... Oi Brasil !!

Já estamos no Brasil, mais concretamente a 100 kms a norte da linha do Equador numa pequena vila chamada Rondonopolis. O único cyber café daqui é muiiiiiiiiiiiiiiiiiito lento de forma que hoje não há fotos, talvez amanha se chegarmos a Manaus a tempo dê para meter algumas. A Venezuela vai ficar na memória, que belo país que belas pessoas, que belos amigos fizemos por lá. Vamos voltar sem duvida.... já se fala em partir de Caracas para uma voltinha por Colômbia, Equador onde já sabemos existir um navio que vai para o Panamá..... mas isso é outra historia. Finalmente começamos as grandes tiradas de moto, de Cidad Bolivar rodámos cerca de 600kms até ao meio da Gran Sabana, a viagem foi acompanhada por muito calor e pancadas de chuva forte, a chuva não chega a incomodar nem é necessário vestir impermeáveis, dura uns 5 ou 10 minutos, arrefece a temperatura do ar e passado 20 minutos estamos secos, é como uma paragem para refrescar... mas sem parar. As refeições são como é nosso hábito em restaurantes de beira da estrada e acho que provámos de tudo um pouco pela Venezuela, principalmente Pollo... o frango muitas vezes era a única opção. Entrámos já com o por do Sol na Grand Sabana, pela primeira vez vemos estrelas, o céu está limpo e o ar arrefece à medida que subimos para os 1300 mts de altitude média deste imenso Planalto. A Grand Sabana tem zonas de floresta densa mas o que a caracteriza são a dezenas de cascatas, rápidos e piscinas naturais que rasgam as grandes planícies de erva baixa. Realmente parece uma savana, mas é verde, muito verde mesmo, em determinadas partes faz lembrar a Patagónia, ao longe a cordilheira de tepuys aglomera as únicas nuvens visíveis no horizonte. O imenso verde rasteiro apenas é interrompido por "ilhas" de palmeiras, um pouco como os oasis no deserto mas com erva verde em vez de areia. Dormimos num meio da Gran Sabana nos rápidos de Kaimoran, erámos para acampar mas com apartamentos duplos a 10 euros mudámos de ideia. No dia seguinte demorámos quase todo o dia atravessando os 200kms que atravessam a Grand Sabana, visitámos inúmeras cascatas, montes de rápidos e alguns pontos indígenas. Fizemos algum TT por uns trilhos até alguns pontos interessantes e só parámos quando chegámos à entrada do trilho que nos levaria até ao Tepuy Roraima. Aqui tivemos de reavaliar a nossa posição, não conseguimos gasolina durante toda a travessia do parque, os únicos 2 postos de combustível estavam secos e segundo informações recolhidas no local seriam entre 27 e 80 kms entre a estrada e ParayTepuy, a aldeia indígena onde começa a escalada. A nossa esperança de poupar 2 dias de caminhada levando as motos até ao primeiro acampamento tb desapareceu quando nos informaram que tal seria impossível. Ou seja a única alternativa para ir ao Tepuy seria seguir até à fronteira com o Brasil, reabastecer e "comprar" uma escalada de no mínimo 6 dias, e nós não podemos ficar mais 6 dias na Venezuela. Com muita pena seguimos viagem, o tepuy terá de ficar para a próxima, aproveitámos e no fim de tarde atravessámos a fronteira, não foi difícil e eram uma 19h quando arrancámos da fronteira do Brasil. Ficámos na vila de La Linea, dormimos na pousada da D. Dulce acompanhados pelo som de uma chuva forte durante toda a noite. Hoje de manha a chuva continuava mas há que seguir caminho, sacámos pela primeira vez os impermeáveis e avançamos pelo meio da neblina para o Sul. Dos 1400 mtrs de altitude da fronteira depressa chegámos aos 200mtrs, a chuva e a neblina pararam e em vez disso temos uma paisagem forrada com morros de floresta e aldeia indígenas. Reparamos que tudo está alagado, os rios transbordam das margens e as planícies parecem pântanos. A vida selvagem aparece finalmente, bandos de aves multicoloridas que vamos vendo cada vez em maior numero, o dia passa-se bem, a temperatura está perfeita, de hora a hora uma nuvem escura refresca-nos, novamente passado 5 minutos estamos secos e assim devorámos hoje mais 600kms. As motos estão a rodar maravilhosamente bem, a Floribela hoje fez fita, a determinada altura começou a falhar e ao fim de alguns valentes soluços parou mesmo, eu saí da moto e quando me virei duas enormes araras azuis e amarelas levantaram voo bem perto de mim. Que beleza de animais, que momento magnifico, chegou entretanto o Casimiro e eu começo a rever as conecções eléctricas, OK problema identificado!! Uma das fichas que leva energia para a bobine de chamada estava desligado, liguei, tudo ok e segue viagem. Pelos vistos ela só queria que eu visse as araras :) Amanha de manha temos no menu a travessia do Equador e se tudo correr bem um pôr do sol agendado no rio Amazonas.

segunda-feira, junho 11, 2007

Só mais umas fotos...

Nascer do Sol na selva... Lagoa de Canaima Do alto do Salto El Sapo com Mateo e Marta, o casal Italiano que nos acompanhou Acampamento Aonda... Objectivo alcançado!

domingo, junho 10, 2007

Mundo Perdido

O mundo perdido existe e é aqui!! Chama-se Parque de Canaima e fica no centro da Venezuela!! Sexta feira passada acordámos cedo, tínhamos uma avioneta marcada para Canaima, uma aldeia indígena que serve de base para explorar a zona oeste do parque com o mesmo nome. A viagem é curta e divertida, voamos baixo e podemos ver a densa floresta interrompida por inúmeros rios e centenas de rápidos e cascatas. Aterramos a escassos metros da lagoa de Canaima, um lago enorme alimentada pelo rio Carrao via 3 imensas cascatas, aqui chamados de "saltos" o salto Golondrina, o salto Huchas e o salto Ucaina. "Descansamos" na praia de areia branca da lagoa com uma cerveja fresca na mão, a agua está quente e a temperatura é perfeita. A meio da tarde entramos numa canoa com Miguel, o nosso guia indígena, a Marta e Mateo, um casal italiano que completa o nosso grupo. Atravessamos a lagoa, vemos os 3 saltos de perto e saímos para a ilha Anatoliy para a primeira caminhada do dia. Visitamos o salto Sapo e o salto Sapito, nesta cascata é possível atravessar de uma margem à outra por trás da cortina de agua. Uma experiência não deverá ser muito diferente de estar dentro de uma maquina de lavar, a agua tem uma força tremenda e enche o ar com uma pressão que torna difícil respirar. A agua vem de todos os lados, bate nas rochas com violência, é como estar dentro de agua e conseguir respirar...se bem que dificilmente. Nova caminhada e do alto da cascata vemos a Gran Sabana em toda a sua dimensão, zonas de floresta densa, zonas de savana plana, muito verde e colorida com palmeiras e os famosos tepuys. Os tepuys são montanhas de pedra massiça que sofreram milénios de erosão, erguem-se na planície de floresta e as suas encostas são como muralhas gigantes, paredes rectas com mais de 2000 metros de altitude. O maior de todos eles tem 700 quilómetros quadrados e chama-se Auyantepuy em língua nativa, significa Montanha do Inferno. Segundo a mitologia das tribos Pemon o topo deste tepuy é habitado por espíritos malignos que eles chamam de "Mawaritón", esses espíritos tem a companhia de uma divindade superior, "Tramán-Chitá" que estabelece o equilíbrio entre o bem e o mal nesse mundo isolado que é o topo do Tepuy. É para o Auyantepuy que vamos, o Salto Angel fica num dos seus canyons, no "Canon del Diablo" e para lá chegar é preciso subir o rio Carrao e o Rio Churún e entrar bem fundo na Gran Sabana. Na sexta feira ficámos a meio caminho, depois de 2 caminhadas e 4 horas de barco montamos a rede no "campamento Aonda" situado na "Isla El Orquidea" bem no coração da selva e rodeados por tepuys. O dia foi fantástico mas cansativo, o Casimiro sempre que ficava um minuto parado, adormecia, dormiu na avioneta, no barco, deitado nas pedras das cascatas, em pé... o coitado sente falta do seu bife e está com pouca energia :) o esparguete do jantar só tinha vegetais e isso deixou-o desesperado :) Pôs-se o sol e chegou a neblina, a floresta é impenetrável e os poucos caminhos que saem do acampamento terminam rapidamente no rio, não há estrelas, o céu está sempre carregado por estas bandas. Eram 8 da noite e já todos preparávamos a rede, o som da floresta é menos intenso do que esperávamos mas a noite foi uma delicia, pelo menos para mim, o resto do pessoal queixou-se das costas... Acordei eram 5 da manha e assisti sozinho ao nascer do sol, o meu primeiro nascer do sol na floresta, um momento que degustei lentamente, a neblina começa a subir à medida que o sol aparecia no meio do Wei Tepuy (montanha do Sol), as cores da floresta brilham com a humidade da noite, o silencio é interrompido por sons dos ninhos da árvore em frente ao acampamento e ao longe passam bandos de pássaros coloridos. O pequeno almoço foi rápido e novamente à base farinha de milho frito e doce, são duas horas de canoa até ao acampamento base do Salto Angel na "Isla Ratoncito", pelo meio atravessamos vários rápidos que nos deixam completamente ensopados, mas a 27 graus sabe bem. Acompanhamos durante todo esse tempo o Ayantepuy, do seu cume saem centenas de cascatas que riscam de branco as suas paredes rochosas, finalmente temos o primeiro vislumbre do Salto Angel. O "Salto Angel" foi assim chamado depois de um explorador americano, Jimmy Angel, ter tentado aterrar no planalto do tepuy e ter inutilizado com essa manobra o seu avião. O verdadeiro nome em Pemon desta cascata de 986 metros de altitude é Kerepacupai Meru (cascata do céu)e é efectivamente uma maravilha da natureza. A caminhada para chegar ao mirador dura uma hora de subida íngreme pela floresta, tudo está permanentemente húmido pelo spray da cascata essa humidade é perfeita para algumas plantas exóticas como a "lábios uma pequena planta carnívora. Chegámos ao mirador e tivemos a devida recompensa, a neblina permanente do topo do tepuy dissipou-se e podíamos ver a cascata em toda a sua dimensão brilhando com o sol da manha. Magnifico!! Apreciamos o momento durante algum tempo e continuamos a subida até ao poço da cascada onde saboreamos um duche na maior cascata do planeta. Na volta, almoçamos "pollo embaraçado" frango grávido????? mas mais tarde percebemos que se tratava de frango em vara assado :) No caminho para a acampamento apanhámos uma chuva tropical das fortes, como se isso não fosse suficiente ainda apanhámos com valentes ondas nos rápidos de Mayupa o resultado foi chegamos molhados até aos ossos mas muito satisfeitos. Nao fosse a chuva intensa e talvez tivéssemos voltado a Cidad Bolivar ainda ontem e assim ganho um dia em relação ao nosso calendário, mas com tamanho espectáculo da natureza nao ficámos muito tristes por passar mais uma noite na selva... Agora estamos todos de volta ás instalações da Adrenalina Tours em C. Bolivar, o Casimiro já teve direito ao seu bife, vamos passear um pouco pela cidade, esperar que refresque um pouco e arrumar tudo para amanha arrancar para a estrada bem cedo, próximo destino; Gran Sabana