segunda-feira, novembro 29, 2010

De que te quejas maricón?

Voltei à solidão e aos meus pensamentos. Estava precisamente a reflectir sobre a sorte do Mihai que conta meses como eu como semanas. O filho da mãe dizia que daqui a 2 meses quer estar na Colômbia e eu daqui a 2 semanas se não estou lá estou bem entalado. Estava eu nestes pensamentos metafisicos quando um autocarro, sim um autocarro relembra-me a minha sorte. De que te quejas Maricon! Pois é de que me queixo eu?? Afinal de contas tenho poucas semanas mas sempre vou tendo algumas e não me posso queixar, estou a fazer uma viagem inesquecível. Reanimei, voltei à terra e em boa altura porque a Costa Rica merece toda a atenção. Por aqui não é preciso muito para ver animais, basta ir na estrada. Como na maioria das vezes não os consigo apanhar em fotografias não perdi a oportunidade de fotografar este. O país está repletos de parques naturais e quase sem percebermos estamos dentro de um. Deve ser por isso normal ver uma cobra coral, uma das mais venenosas do planeta a atravessar a estrada. Saí finalmente da PanAmericana e apontei ao lago de Arenal e as famosas reservas naturais de Monteverde. A selva é das mais densas que já vi, escura, alta e coberta por uma neblina permanente. A humidade é total e sem me aperceber estou todo molhado. A estrada começa por ser boa mas as armadilhas estão sempre presentes. Subo mais e a neblina adensa, não é à toa que chama a isto a floresta nublosa, não se vê a ponta de um... enfim, se isto fosse mais seco não era certamente tão exuberante, por isso aguenta e usufrui de um dos parques mais belos da Costa Rica. Deixo as montanhas de Monteverde e sigo a margem do lado Arenal até La Fortuna, o ponto de exploração para o mais famoso vulcão do país. O vulcão Arenal é dos mais activos de toda a América central e ainda à poucos anos matou meia centena de pessoas numa erupção mais violenta. Desta vez não se deixa ver, a carapuça de nuvens esconde o seu cume e os rios de lava que frequentemente podem ser vistos de muito longe. Meti-me em avarias e fui à procura de um atalho para chegar ao cume. Passado 6 quilómetros estava assim. Quem não tem cão caça com gato por isso aproveito o resto do dia húmido e vou fazer uma caminhada até à cascata de La Fortuna. A chuva miudinha que caí por estas bandas nos últimos dias faz uma graça e em vez de uma temos duas cascatas para ver. Agora vou jantar no pueblo que é uma autentica disneylandia para grigos aventureiros, de descidas em rapel a rafting, de passeios de moto4 a piscinas termais há por aqui de tudo. Eu vou dormir cedo mais uma vez, amanha é dia de faina, se o dia acordar com menos nuvens vou fazer uma caminhada a ver se vejo o vulcão mais de perto, se a chuvinha continuar meto-me na estrada e fujo para o sol da costa caribenha.

sábado, novembro 27, 2010

Entre os vulcões da Nicaragua.

Entrei na famosa PanAmericana, a grande estrada que atravessa as 3 américas. Grande só mesmo em comprimento, é chata, passa longe da maioria das atracções e tem um trafico permanente e intenso de camiões. Alem disso é perigosa e sem grande interesse paisagístico. Mas em alguma partes é a única por isso vou ter que gramar com ela até à Costa Rica. Quando chego à fronteira tenho um dejà vu, uma KLR igual à "minha" com alforges iguais aos meus e um saco na traseira. É a Raimunda!! Montado nela vem o Mihai, um Romeno de sorriso aberto que está a ser ajudado por um assistente de aduana O assistente diz que tb trata dos meus papeis, já sei que vou ter de largar uns dólares mas não me apetece nada andar a tirar fotocopias de guiché em guiché com este calor. Alguns camiões da fronteira tem uma opinião semelhante à minha sobre a burocracia das Honduras. O Mihai teve a mesma ideia que eu, comprou uma KLR 650 velhinha nos Estados Unidos e há 7 meses que vem a descer desde Nova York. O nosso assitente de aduana volta com ar fatigado e com noticias de complicações. Juntámos um Romeno, com moto americana que fala espanhol e um português com moto mexicana que pensa que fala espanhol no mesmo embrulho e a aduana está a entrar em colapso burocrático por causa de nos, até ja deve ter acabado o toner das fotocopiadoras. Fico mais descansando quando o guarda me diz que comigo esta tudo bem, o Mihai é que não tem o registo de propriedade da moto, tem outro documento valido nos EUA mas que aqui não vale nada. Meteu a moto em seu nome mas demorava a chegar o registo de propriedade e por isso trouxe o provisório. Eu trago o meu valioso "poder" com lhe chamam os guardas, uma escritura reconhecida em notário pelo proprietário da moto garantindo-me autoridade para viajar com a moto e ate agora tenho-me safado. 3 horas depois recebemos finalmente ordem de marcha, o Mihai ficou mais leve 40USD por causa da sua situação e eu acabei por o safar que ele não tinha dinheiro suficiente. Caiu a noite e seguimos juntos até a cidade mais próxima. No dia seguinte a nossa rota é semelhante, por isso Raimunda e Maria, ou melhor Mihai e eu, ultrapassamos mais uma fronteira e almoçamos numa das pérolas coloniais da Nicarágua, Leon. Degustamos um café expresso enquanto assistimos à calma que reina nesta bela praça central de Leon Alem de motos parecidas temos gostos comuns, também ele prefere os locais menos turísticos e as rotas menos movimentadas. Chegamos a Granada, a outra bela cidade colonial e descobrimos um hostal fantástico bem no centro. Durante as minhas viagens já estacionei em lobbies de hostais, em restaurantes, em escadarias e em recepçoes mas nunca tinha encontrado um onde fosse possível estacionar dentro do quarto. O sol ainda aquece as paredes coloridas da cidade de maneira que desfrutamos da sempre bela luz com que termina o dia. Ao jantar saímos para a zona menos turística, a mais autentica e barata da cidade. Passa pouco das 8 da noite e ja esta tudo fechado, restaurantes só no lado dos gringos. Nas nossas pesquisas conhecemos a D. Ana Joo uma senhora que tem uma banca na rua e se prontifica a nos fazer o jantar. Um frango delicioso servido na sua própria casa, numa sala que já foi hospital no seculo XIX. No dia seguinte percorremos a cidade sem pressas, apesar de turística não perdeu o seu carácter e a vida local segue sem pressas, sem stress e sem demasiados gringos. As águas do lago Nicarágua banham a cidade e ao fundo um vulcão espreita ameaçador por entre as nuvens. Aliás vulcões por estes lados não faltam, desde El Salvador que as estradas serpenteiam entre cones perfeitos rodeados por floresta. Alguns soltam fumo, outros limitam-se a ornamentar o horizonte repleto de terras férteis bem aproveitadas pelos locais. As nossas rotas separam-se poucos quilómetros depois de Granada, o Mihai vai para a ilha Ometepe e daí para Sao Carlos onde vai procurar uma canoa que o leve até à Costa Rica. Eu, apesar de me agradar muito a sua rota e de ser conhecida a minha tara por meter motos em canoas, estou mais limitado de tempo, por isso vou continuar pela costa e dar um mergulho no Pacifico antes de seguir para a Costa Rica. Talvez nos voltemos a encontrar Mihai, boa viagem e aproveita os próximos meses!

sexta-feira, novembro 26, 2010

Ele há dias assim...

Bons, muito bons!! Acordei cedo como é habitual, optei por apanhar um tuc-tuc até ao complexo arqueológico de Copan, é mais rápido e assim sou provavelmente o primeiro a chegar. A minha artimanha resultou, não há ninguém, nem guarda. A floresta envolvente recebe-me com os seus sons característicos de despertar, incluindo as 6 escandalosas araras que estão nas arvores a caminho da praça central. As primeiras esculturas, ainda douradas pelo sol nascido à pouco, completam o quadro de uma memoria que vai ficar na minha cabeça para sempre. Respira-se um a tranquilidade soberba, a energia do lugar é palpável e eu sozinho, com todas as ruínas, esculturas e pirâmides só para mim. Enquanto contemplo o lugar do cimo da acrópole a neblina desaparece e chegam os primeiros turistas. Mesmo assim poucos, muito poucos. Agarro-me a um grupo para ouvir o guia, cedo perco a paciência e procuro outros locais para investigar. Os tuneis são um bilhete à parte e eu não o quis comprar, mas a guarda está a olhar para o outro lado e como bom tuga vupt já lá estou dentro. Ela viu-me e vem-me buscar, mas entre paredes labiríntico sofreu um bocadinho para me encontrar. Volto aos baixos relevos e às esculturas que enchem estas paredes, sem duvida as mais impressionantes de todos os templos Mayas que já vi. Volto para o hostal, desta vez a pé, o dia começou bem mas melhora ainda mais. Consigo finalmente falar por telefone com Israel, um velejador espanhol que costuma navegar pelos mares do Panamá e Colombia. Adiantada que foi a data da partida do barco que tinha previsto, fiquei sem alternativas para atravessar o Darien Gap. Agora o Israel diz-me que as nossas datas coincidem e concorda por telefone em transportar a Maria apesar do seu veleiro ser pequeno e novo. Confesso que este era um assunto que me preocupava e foi uma grande satisfação saber estas boas noticias. Parti do hostal super animado e bem disposto, até o dia ajudou, estão umas nuvens altas e um fresco agradável, perfeito para andar de moto. As estradas é que poderiam ser melhores, claramente a rede viária das Honduras é a pior que apanhei até agora. Derrocadas, pedaços de estrada que desapareceram e buracos gigantes, desejosos de rebentar um pneu e empenar uma jante. Chego à fronteira com El Salvador, vou preocupado mas com confiança, ultrapassar cada fronteira com uma moto que não está em meu nome é sempre uma lotaria. Puro engano, os salvadorenhos são ainda mais simpáticos que os hondurenhos e quando saí da fronteira metade dos computadores da aduana tinham um website da motoxplorers nos ecrãs. Sou recebido por estradas melhores e por um horizonte cheio de cones de vulcões. Desço das montanhas a caminho do meu poiso do dia, Suchitoto, uma vila colonial na beira de um lago no coração de El Salvador. Em vilas e cidades a busca de um hostal começa sempre pela praça principal. Não encontrei nenhum hostal mas conheci o Chris e a Mila, um casal de sul africanos backpackers que há um ano viajam pelo mundo. Recomendam-me um hostal e acabamos a jantar juntos. A Mila é escritora e mantém um excelente blog em http://idreamofdesign.wordpress.com/ Depois do jantar saímos juntos para o único bar da vila onde conhecemos a Stacy e o Tommy, norte americanos de férias numa rota só dentro de El Salvador. A vila é pequena e deliciosa, dizem os entendidos que Antigua era assim antes de ser invadida pelo turismo de massas. Um pequeno pueblo colonial, com calçada de pedra e edifícios coloridos, aqui encaixados numa encosta tropical voltada para um lago fantástico. De todas as casas de vê o lago rodeado por montanhas, no ar uma calma incrível, toda a gente se senta nas sombras e contempla a praça, assim passam horas, simplesmente contemplando. Eu caminho desde cedo pela vila e chega a hora de voltar à estrada, sigo agora para sul de volta para as Honduras. Passo muito próximo do Pacifico mas li que as praias de El Salvador não são muito interessantes, por isso vou procurar as das Honduras que parecem ser bem melhores.