quarta-feira, dezembro 15, 2010

Acabou o sabão.

Acabou o sabão azul e branco... e todos sabemos que sem sabão azul e branco não se pode viajar de moto :) Há que voltar a casa, comprar mais sabão, juntar mais algum dinheiro, acumular mais algum tempo e voltar para continuar a eterna viagem. Esta é uma viagem que ganhou um espaço especial na minha memória, foi uma das mais duras, uma das mais difíceis, mas também uma das que passou por locais mais belos. Nos meus arquivos ficam momentos mágicos de solidão em lugares incríveis, momentos duros testemunhando a violência da natureza, e instantes memoráveis com novos e velhos amigos das viagens. O ultimo dia foi o mais longo, 3 horas de moto e 20 entre aviões e aeroportos. A minha barba de 3 semanas também não ajudou, segundo as forças de segurança do aeroporto de Caracas devo ser parecido com algum traficante guerrilheiro. Só isso justifica 8 revistas integrais, 3 raio X de corpo inteiro e 2 horas sentado na salinha da brigada nacional anti-droga. A minha ideia de copiar a barba de marinheiro do capitão Bob não foi bem recebida pelos venezuelanos... Perante tantas interacções com as 4 forças militares diferentes no aeroporto, o atraso de 4 horas do meu voo passou despercebido. A Maria ficou na casa do Ruben e da Marief, amigos antigos que conheci durante a minha passagem pela Venezuela em 2007. Estas amizades que vamos juntando nas vadiagens são sem dúvida uma das grandes riquezas que nos trazem estas aventuras, amigos que se tornam família, família que nos acompanha sempre, estejamos nós onde estivermos. O Ruben a Marief e agora o pequeno César são a minha família Venezuelana, receberam-me, ajudaram-me e mimaram-me durante a minha passagem relâmpago na sua casa. Obrigado! Muito obrigado mais uma vez! A grande família brasileira apesar de longe e fora de rota desta vez acompanhou toda a viagem e tenho de confessar que é muito energizante e animador ver os seus comentários sempre que venho ao blog. Estou com saudades pessoal, a próxima tem de ser para esses lados :) Agora estou de volta a Lisboa, à crise, ao PEC e ao inverno. Fui recebido com um frio cortante mas com um sol radioso, fico sempre fascinado com a beleza da luz do nosso país. O frio soube bem na primeira noite, sobe bem na segunda, mas na terceira já começo a sentir falta do ar quente e húmido dos trópicos. Está na altura de começar a pensar na próxima :)

sábado, dezembro 11, 2010

Determinação ou teimosia ?

Os dois últimos dias desta viagem forma absurdos, pela terceira vez nas ultimas semanas todas as forças naturais e sobrenaturais se juntaram para gorar o meu objectivo de chegar a Caracas a tempo do voo. O meu animo e determinação foram sistematicamente atacados por um sucessão incrível de acontecimentos que se seguiam a um ritmo sem descanso. Mas eu tenho um trunfo forte, sou teimoso que nem uma mula, vou avançar! De manhã bem cedo comecei a ter de lidar com os sucessivos desabamentos que invadiam a estrada. Depois aldeias inundadas onde a estrada era o ultimo recurso seco, aproveitado pelas famílias para amontoar os haveres que conseguiram salvar de suas casas. Vencidas as chicanes entre televisões e microondas chego a um posto de combustível para atestar. Não há! A resposta repete-se durante os 100 quilómetros seguintes até, inevitavelmente, ficar a seco. As inundações não deixaram chegar os abastecimentos normais de combustível e na região de Rio Hacha não há gasolina à 6 dias. Consigo comprar a preço de ouro um galão a um grupo de simpáticos rapazes que me explicam a situação. Mais 100 quilómetros e nova pane seca, desta vez no meio de nenhuns. Deito a Maria, subo a roda da frente numa pedra e consigo juntar os últimos 500ml no sitio certo. Faço mais 10 quilómetros e encontro uma banca de estrada com uns garrafões com um liquido amarelado. És gasolina? Si és, 20.000 pesos el galon! 10USD. Toma!! Chego finalmente à fronteira e consigo encontrar uma bomba com combustível. Já não tenho pesos e tenho de engolir o cambio que inventem, preciso mesmo de gasolina. São mais uma vez simpáticos e fazem-me o cambio normal. Na entrada na Venezuela os problemas continuam. Há 6 dias que não há água, luz nem telefones. Na imigração isso não representa grande problema, mas na aduana sim. Impossível fazer importações temporárias! está fechada!! Explico que tenho voo dentro de dois dias, peço que me façam a importação à mão ou que me deixem passar que faço a papelada na próxima aduana, nada, a moto não pode passar. Durante mais de uma hora torno-me "amigo" de um dos guardas, conto-lhe a viagem (resulta sempre para criar simpatias) e falo do meu drama. Ele começa finalmente a ceder e a movimentar os companheiros. De repente volta a luz, ele grita de imediato para a aduana, hay luz, hay luz, vay hacer tu permisso. Ok amigo, gracias! Mas o meu animo momentâneo sofre outro golpe, o tipo da aduana estava descansadinho a dormir e foi acordado, não está com cara de muitos amigos. Levanta problemas com tudo, o seguro, a moto, o caminho que está inundado. Eu saco do meu currículo e digo-lhe que não é a minha primeira vez de moto na Venezuela, sei que não é preciso seguro e que o poder que trago é perfeitamente legal. Ele amua mas continua o meu processo, desta vez com um dedo de cada vez no teclado a escrever os meus dados. 3 horas depois estou despachado e meto-me ao caminho. Mais uma vez por pouco tempo, a 8 quilómetros da fronteira a estrada está alagada. Durante a minha espera na fronteira fui recolhendo informações e já sei que me espera agua com fartura. Uns dizem que é impossível passar, que a agua dá pelo pescoço, outros dizem que dá, que os jipes passam e os camiões também. Eu vou andando, escolho um camião como referencia e sigo-o para estar sempre a par da profundidade e dos possíveis buracos escondidos na agua castanha. Vou avançando aos poucos, o camião para com motor parado, escolho outro e sigo o mesmo método. Mantenho as rotações altas e a velocidade muito baixa. A Maria aguenta-se bem, o GPS desliga, as luzes apagam-se, a gopro fica sem bateria e eu estou com agua pelas cochas, mas continuo-o a avançar. Demoro quatro horas para fazer 63 quilómetros, cai a noite, por todo o lado só agua, o lago de Maracaibo, também conhecido por ser o maior filão de petróleo da Venezuela transbordou e alagou centenas de quilómetros à sua volta. A paisagem é desoladora e escura, chego finalmente a Maracaíbo e "almoço" no MacDonalds de beira de estrada. São 7 da noite e estou numa das avenidas principais da 3ª maior cidade do país sem mapa nem gps e com um aquário em cada bota. Volto à estrada, Maracaibo é uma cidade perigosa e o Ruben avisou-me que não era um bom local para ficar. Sigo noite escura adentro por uma estrada movimentada, cheia de camiões. A cada cratera que piso digo 236 palavrões e prometo a mim mesmo que fico no primeiro hotel que aparecer. Cada vez a distancia entre as luzes dos pueblos é maior, cada vez há menos transito, passo longos quilómetros sem ver nada nem ninguém. De repente uma luz forte, um café de beira de estrada com muitos carros e camiões estacionados. Paro, tomo um café, fumo um cigarro e bebo uma agua. Atesto a moto e pago 1.5 bolívares por 15 litros de gasolina, a agua de meio litro custou-me 5 bolívares e o café 8. Eu troquei 40 dólares por 200 bolivares na fronteira, agora façam as contas e vejam o ridículo que custa a gasolina neste país. A paragem deu-me novo animo, não sei se por inconsciência ou cansaço sinto-me seguro e tranquilo. Passo Ciudad Ojeda, outra sugestão para dormir do Ruben, ainda tenho energia e decido continuar um pouco mais. Começa a serra e mais derrocadas, a sinalização nocturna destas toneladas de lama que invadem a estrada são latas com petróleo e borracha a arder que delimitam a área onde é possível passar. Imaginem uma derrocada como esta mas de noite escura com uma lata a arder em cada ponta... sombrio... Chego a Carora, vejo alguns moteis com bom aspecto. Vou ao centro da cidade e está tudo fechado e deserto. Volto à estrada principal e depois de uma conversa com um jovem policia decido-me pelo motel La Cascada. Depois de um duche longo e quente verifico que fiz 700 quilómetros, faltam apenas 300 para chegar ao meu destino final e a não ser que aconteça um cataclismo vou conseguir chegar a tempo do meu voo amanhã. Estou cansaço, esgotado, mas muito satisfeito.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Maldita cocaína...

... que tão má fama dá a um país tão belo. A Colômbia não é o que dizem, é um país que sorri, que recebe bem que nos faz sentir leves... e sem ser necessário recorrer a substancias ilícitas. Cartagena é assim mesmo, bela, forte, rústica mas com uma doçura nas suas gentes que encanta todos os que a visitam. Eu não fui excepção, estou rendido a esta cidade, a esta baía, a esta gente, à Colômbia. Infelizmente não tenho tempo para a desfrutar como gostaria, vou ter arrancar rapidamente para a Venezuela. As previsões de importação temporária da moto na Colômbia são de 8 horas, ou seja um dia de espera para poder arrancar para a estrada. Um dia que não tenho, a troca de barcos fez-me atrasar e agora tenho 2 dias úteis e 1300 kms para chegar ao meu voo de regresso em Caracas. Perante o ar desconfiado do capitão Bob avanço confiante na companhia de Paola, a sua agente despachante para a Aduana e em menos de 2 horas estou de volta ao Hotel. Listo e pronto!! O charme da Paola misturado com a minha determinação e positivismo produziram mais um recorde. A Maria está pronta a rodar, ao contrário dos submarinos improvisados pelos narcotraficantes que estão em exposição nas docas da aduana. Já sei das enormes inundações nas regiões que vou ter de atravessar para chegar a Caracas e qualquer imprevisto compromete totalmente o meu justo calendário. Por isso avanço pela rota mais curta e em pouco mais de 2 horas tenho o primeiro imprevisto. Uma simpática policia diz-me que uma ponte ruiu mais à frente, tenho de procurar outra forma de chegar à fronteira. Fujo para a costa, longe das montanhas as estradas devem ter sofrido menos com as chuvas. Acerto na aposta, a estrada é boa e rápida, alem disso é bonita. A chuva volta e com ela mais desabamentos e lama no asfalto, nas margens da estrada vejo vários índios "despidos" a rigor. Na minha cabeça repito, tenho de volta com mais tempo... tenho de voltar com mais tempo... É daqui que sai a caminhada de 6 dias para a Ciudad Perdida, umas isoladas ruínas de uma civilização ainda desconhecida, algures no topo destas montanhas. Tinha-a nos planos mas vai ter de ficar para a próxima. A chuva não me deixa tirar fotografias, paro numas bombas para encher o tanque e oferecem-me um café quente. Quanto é? Cortesia diz o senhor. Estão a ver... cortesia é o apelido da grande maioria dos Colombianos. São 9 da noite quando chego a Santa Marta, 3 horas de condução nocturna com chuva forte na Colombia. Quebrei todas as minhas regras de segurança mas sobrevivi e estou satisfeito. Comemoro sozinho num restaurante chique para variar, risotto al mare com duas taças de vinho chileno. Sinto que mereço!! O jantar foi mais caro que o hotel... ;)

quinta-feira, dezembro 09, 2010

A travessia possivel do Darien Gap

Afinal a travessia do Darien Gap é mesmo o ponto alto desta viagem, não pelos motivos que esperava mas porque atravessar do Panamá para a Colombia pode ser muito agradável. E foi durante os 2 primeiros dias da travessia no Catamaran Viva cruzando as magnificas ilhas de San Blas... fazendo mergulho e velejando por mares turquesa... entre ilhas virgens e desertas... ou povoadas pelos Kuna a etnia indígena que governa estas águas. Mas nem tudo é turquesa nestas águas, por vezes as tempestades tropicais trazem nuvens cinzentas ou mesmo negras. E foram elas que nos acompanharam nos 3 últimos dias e as 180 milhas da travessia até à Colômbia. Ondas grandes, enjoos, turnos de vigia e noites em claro preencheram as 50 horas de navegação assustadora que nos trouxeram até Cartagena das Indias. Pelo caminho ficaram alguns estragos no catamaran, um dingy perdido, um motor avariado, 6 horas à deriva numa noite sem lua, muita chuva e um salitre húmido e desconfortável que se pega a tudo e todos.. Na minha memória ficam sem duvida marcados os turnos nocturnos no leme, a deriva durante 6 horas sem motores e sem vento e a substituição da correia do único motor sobrevivente às 3 da manhã. Bob é um excelente capitão, com o seu ar de pai natal e a sua voz de locutor de rádio, vive o seu sonho e não se cansa de nos lembrar que tambem nós devemos viver o nosso. O Albert é o outro membro da tripulação, colombiano e de ar franzino é um energético cozinheiro que prepara refeições deliciosas, mesmo com a sua cozinha a balançar ao sabor de grandes ondas. Nesta viagem aproveitou para se encostar ao novo ajudante e não lhe deu descanso... Viajámos com 7 backpackers. O Guilhermo e a Maria são de Espanha, a Lola também é espanhola e viaja com o Guile um irlandês de sotaque forte. Depois temos o Robert e a Jackie, inglês e australiana respectivamente e por ultimo o Steve, outro irlandês que tem sempre uma cerveja ou um cigarro na mão. As meninas coitadas passam muito tempo enjoadas nos camarotes, devoram tantos comprimidos para o enjoo como os irlandeses bebem cervejas, umas atrás das outras... A única que não se queixa é a minha Maria que todos os dias acorda com uma vista que faz inveja. Eu tenho-me mantido sóbrio e seguindo a minha rotina de levantar cedo e dormir cedo, apenas substituí a caminhada matinal por uma natação sempre que o mar o permite. Acabámos de chegar a Cartagena da Indias na Colombia. Hoje não há hostal nem acampamento pra ninguém, hoje vou procurar um bom hotel, tomar um belo duche, comer um belo bife e dormir numa bela cama.