quinta-feira, setembro 25, 2014

No reino do Sião


O Eslovaco tinha razão, a Tailândia é realmente mais fresca! Na verdade não é assim literalmente, o computador da moto continua a dizer que estão 35 graus mas a sensação é de bem menos.  Continuamos a ritmo acelerado, o Sunny marca o passo nos seus habituais 120 em permanente gincana entre scooters, carros, camiões e animais.


Nós finalmente aclimatamos. Já acordamos naturalmente cedo, sem aquela sensação de que estamos a acordar às 3 da manha para andar de moto. Avançamos para Norte pelo meio das montanhas de "limestone" que tanto caraterizam esta região do planeta, evitamos a cidade de Krabi e seguimos para uma pequena e bem mais pacata baía a norte da cidade.


Um almoço grandioso pede o primeiro mergulho da viagem na praia bem em frente do restaurante. É nesta baía povoada por milhares de pequenas ilhas que saltam acima da linha de agua que fica a tantas vezes fotografada Ilha do James Bond  Ko Khao Phing Kan, famosa depois do filme "The man with the golden gun" gravado aqui à 40 anos atras. 


Tem de ficar para depois, vamos adiar para a descida, o objectivo do dia é Rangon, a cidade fronteiriça que nos vai servir de base para tentar a entrada no Myanmar. A estrada corta a floresta tropical por entre as montanhas do Parque Natural de  Si Phang-Nga.


Como é normal numa floresta húmida... está húmido :) nuvem cobrem os cumes e uma neblina espessa sai do asfalto como se estivesse a transpirar. No ponto mais alto reencontramos o sol que acaricia um modesto templo com um Buda negro. Do lado uma torre permite subir mais um pouco e apreciar a vista acima da copa da floresta.


A respiração acalma, com compassos longos e profundos inspiramos longamente os odores da terra húmida e pela primeira vez nesta viagem sinto a paz e tranquilidade. É por momentos destes que sou tão viciado em viajar.


O momento Zen somado com o mergulho depois do almoço torna definitiva a nossa entrada em modo "vadios" ;) deixamos de viajar e passamos a vadiar. Os condutores kamicazes, as scooters e as manobras intempestivas dos outros condutores passam a ser administradas com muito menos ansiedade... Tudo parece que diminuiu de velocidade, como se tivéssemos mudado de rotação de um gira discos para Long Play.


Tudo nos parece agora perfeito, até a chuva tropical que nos recebe nos últimos quilómetros antes de chegar a Rangon. Paramos, protegemos passaportes, gadjets e documentos em lugar seco e seguimos viagem sentindo a chuva quente escorrer por dentro do casaco aberto. Está-se bem!


Rangon recebe-nos em festa, é a semana das festas da comunidade chinesa e toda a cidade está decorada a rigor. Rigoroso parecia também o policia que nos mandou parar num controlo de estrada a escassos metros do nosso hotel. "International drivers license please", chiça acertou em cheio com a única coisa que eu não tenho.


No worries, sorrisos, gestos cordiais e muitos Sawasdee  depois (saudação em thai) a minha carta portuguesa passa a ser válida :) Agora é tempo de descansar que amanha é um importante, vamos tentar entrar no Birmânia, Myanmar ou Burma, como preferirem chamar à antiga provicia do Reino do Sião que fica do lado de lá deste canal do Mar de Andaman. 




Enviado do meu iPad

terça-feira, setembro 23, 2014

Sunny 120

O Sunny e Fadzil vão nos acompanhar ate à Tailandia, o Sunny tem uns contactos na fronteira com o Myanmar e nós vamos tentar atravessar para lá, inshala. O plano é subir rapido e depois descer de volta para sul num zigue zague mais calmo entre a costa do mar de Andaman e o Golfo do Sião.


Ja viajei com o Sunny mas ele ia comportado porque era o meu territorio, agora a situaçao é inversa, estou nos seus dominios e quem manda é ele. E manda bem, manda aliás muito bem, uma conduçao certinha sempre, mas sempre a 120.
Não importa se há transito, se há chuva, se há cidades, é sempre a 120... Parece alguem que eu conheço aí de Portugal que diz q tb nunca passa dos 120 ;)


Mas aqui é demais, muito acima da velocidade sensata quando os outros condutores acham que os piscas e os espelhos sao meros acessorios decorativos :) Nunca me deparei com tamanha confusao nas estradas, as milhares de scooters vindas de todas as direcoes tb nao ajudam a montar uma imagem ordenada do quer que seja... Risco continuos, duplos continuos e até separadores em zebra delimitando as faixas nas cidades sao absolutamente ignorados por estes condutores alucionados.


Ultrapassam pela esquerda, pela direita, por onde há uma nesga de espaço, sao totalmente imprevisiveis e quando menos se espera invertem o sentido e viram aleatoriamente sem qualquer ameaça previa, viram e pronto. Outra coisa curiosa é os separadores das vias rápidas, duas faixas para cada lado e um separador de relva no meio, um obstaculo que os locais devem achar algo despropositado e até perigoso, impedindo-os de fazer inversão rapidamente sem subir e descer passeios e pisar relva.


Por entre eles Sunny e Fadzil avançam nos seu 120 fixos, tranquilos, como se nada fosse. Eu já apanhei alguns sustos e demoro mais, tento prever as manobras mais inuzitadas possiveis e só depois avanco para a ultrapassagem. O Sunny em algumas coisas faz-me lembrar o meu amigo Teles,  pode estar a chover, pode não haver nada para ver nem gasolina para meter, mas a cada hora tem de parar para fumar ;) smooke, ride and eat, that what we do!


Mas nem tudo é assim tão mau, a gasolina custa 0,20€ o litro e as motos nao pagam portagens nem sao alvo de inspeçao pela policia, quanto ao resto, é ganhar as manhas locais e andar sempre de olhos bem abertos ;)


Os almoços sao simples e deliciosos, mercados de rua, restaurantes familiares, a cozinha daqui é qualquer coisa de divinal para quem como eu gosta (muito) de picante. 


Avançamos rapidamente para norte e chegamos ja no fim de tarde à fronteira da Tailandia onde a paisagem muda radicalmente, das suaves montanhas malaias para os picos de rocha que surgem do meio da floresta tropical. A temperatura mantem-se nos 35 graus, mas a sensaçao termica baixa bastante, ficando bem mais agradavel.


Encontramos um Eslovaco na fronteira que diz que a Malasia é um forno comparada com a Tailandia, espero que seja verdade.

KL para os amigos.

KL é como os locais chamam a Kuala Lumpur, a capital da Malásia e, provavelmente, a capital do sudoeste Asiático. A primeira impressão não é das melhores, 35 graus e 100% de humidade que nos atingem em cheio e nos deixam sem ar assim que saímos do aeroporto. As 7 horas de diferença horária e quase 24h entre voos e ligações também não nos deixa muito receptivos ;)


É uma cidade grande e plena de contrastes, de um lado arranha céus incriveis, do outro mercados de rua tipicamente asiaticos, numa esquina um Aston Martin ultimo modelo, noutra um tuc-tuc desengonçado...


É aqui que islâmicos, budistas, hindus e cristãos convivem em plena harmonia. Pode parecer presunção afirmar isto assim com apenas 3 dias de cidade, mesmo tendo sido tão intensos, mas eu tenho um infiltrado que vive em KL à 41 anos, o Sunny.


Sunny Oh é uma referencia para todos os viajantes de moto que passam pelo sudoeste Asiático, à mais de 40 anos que mantém uma oficina que começou pequena e é agora apenas e só a referencia no ramo na Tailândia, Malásia e Singapura.


Sunny Oh é tambem o patriarca da "dinastia Sunny" uma familia de 3 gerações que nos recebeu de forma soberba durante estes dias.


Este foi apenas um dos mimos que recebemos deles, um pequeno almoço típico chinês com toda a família Oh e com 15 pratos tradicionais, todos d e l i c i o s o s!


KL pode ser uma cidade fantástica, com uma diversidade incrivel e um vibração genuína, mas sem duvida o melhor de Kuala Lumpur tem nome, chama-se Sunny Oh dinasty ;) thank you all Oh dinasty!
Amanha começamos a rodar para norte a caminho da Tailandia, era para ser com uma bela BMW R100GS PD mas ainda nao esta pronta para enfrentar a viagem, por isso lá terá de ser numa 1200gs da coleçao do Sunny :)





terça-feira, setembro 02, 2014

Indochina, o fim do jejum.


Reza a lenda que Parameswara, um principe da Ilha de Sumatra, viajou para uma caçada e enquanto descansava sob uma árvore próximo a um rio, observou um pequeno veado-rato empurrar um de seus cães de caça rio adentro. Impressionado com a coragem do animal e com o que considerou um bom presságio, Parameswara teria decidido fundar ali um império, chamando-o Melaka, nome da árvore sob a qual ele se havia abrigado.


É sobe as mesmas árvores em Malaca, onde portugueses desembarcaram em 1511, que este "projecto" (leia-se, desculpa ;) tem intenções de iniciar e terminar a sua rota. Pelo caminho 8 países com uma diversidade cultural, étnica e religiosa incrível. Uma terra povoada por sultões e dragões, um território com uma exuberância natural soberba que contrasta com a simplicidade e simpatia do seu povo.


Apesar de já ter viajado pela Tailândia e pelo mar da Andaman, esta é uma das regiões que sempre coloriram o meu imaginário e onde sempre desejei rodar de moto. O karma quis que no ano passado o meu caminho se cruza-se com o de Sunny Oh, um motociclista malaio com quem partilhei uma semana de viagem de moto pela Europa.

Homem experiente e viajado, com um sorriso permanente e viciado em "Bacalau", o Sunny tornou-se um bom amigo mas cometeu o erro (coitado) de me dizer a frase: "...quando fores à Malásia tens lá moto..."


Vou começar pelo sul, pelo estreito de Malaca, as metrópoles de Kuala Lampur e Singapura, subindo de volta pelo golfo da Tailândia até à ilha de Ko Samui. Depois atravesso a península para espreitar o Myanmar antes de voltar a descer pela costa do Mar da Andaman até às areias de Phuket e Krabi. Em Penang vou investigar o ferry para Sumatra e se for possível, descer atravessando a ilha Indonésia de volta a Malaca.


Para o ano fica a segunda etapa, Cambodja, Vietnam, Laos e o norte da Tailândia... mas sem pressas, logo se vê.

Depois de quase 3 anos de jejum exploratório é tempo de voltar a vadiar.

Dia 17 começa a faina!